quinta-feira, 1 de junho de 2023

 

S U F O C O


ROUBARAM O NOSSO AR

O QUE RESPIRAMOS

E O QUE ASPIRAMOS

SEQUESTRARAM A NOSSA PAZ

PISOTEARAM NOSSOS IDEAIS

RASGARAM NOSSAS ENTRANHAS

CUSPIRAM NA NOSSA CARA

LANÇARAM NOSSOS CORPOS 

PARA O ALÉM

QUATRO ANOS DE SUFOCO

PARALISARAM NOSSOS DESEJOS

AMARRARAM NOSSAS MÃOS

PODARAM AS NOSSAS ASAS

ESPIZINHARAM A NOSSA HUMANIDADE

ADOECEMOS, MURCHAMOS

MAS NÃO NOS CALARAM

BROTARAM DE TODOS OS NOSSOS POROS

A VONTADE DE PERSISTIR, DE EXISTIR

LEVANTAMOS E COMO PAULO FREIRE

AGORA ESPERANÇAMOS...

PORTAS ESCANCARADAS, ROSTOS AO VENTO

LIBERTADOS, SEGUIMOS...

CORAÇÕES ACELERADOS

V I V O S


terça-feira, 10 de dezembro de 2013

Dicas de escrita de H.P. Lovecraft

Olá, amigos!
Hoje não venho aqui publicar nenhuma obra original, mas apenas repassar algo de interessante com que me deparei esta semana.
Resolvi reler uma coletânea de contos de H.P Lovecraft que eu tenho há algum tempo - eu e a Pina já comentamos diversas vezes sobre Lovecraft em nossos encontros, lembram? - e me deparei com um apêndice muito interessante em uma dessas edições. É um pequeno texto do autor no qual ele constrói um passo a passo do seu processo de produção literária, com enfoque para contos - mas que, ao meu ver, poderia muito bem servir para romances também. Como achei muito interessante, repasso para vocês aqui:



O processo de escritura, claro, é tão variado quanto a escolha do tema e da ideia inicial; mas se as histórias de todos os meus contos fossem analisadas, é possível que as seguintes regras pudessem ser abstraídas a partir do procedimento padrão:

1 – Prepare uma sinopse ou um cenário para os acontecimentos na ordem em que ocorreram – não na ordem da narrativa. Descreva com riqueza o suficiente para contemplar todos os pontos vitais e motivar todos os incidentes planejados. Detalhes, comentários e estimativas das consequências às vezes são desejáveis nessa estrutura temporária.

2 – Prepare uma segunda sinopse ou cenário para os acontecimentos – agora na ordem da narrativa (não necessariamente na ordem de ocorrência), com grande riqueza de detalhes e notas relativas a mudanças de perspectiva, ênfases e clímax. Faça as alterações necessárias na sinopse original caso essa mudança aumente o impacto dramático ou a eficácia geral do conto. Interpole ou exclua incidentes à vontade – não se prenda jamais à ideia original, mesmo que o resultado seja um conto absolutamente diferente do planejado. Faça acréscimos e alterações na medida em que ocorrerem durante o processo de formação.

3 – Escreva todo o conto – depressa, com fluência e sem tecer muitas críticas – de acordo com a segunda sinopse, na ordem da narrativa. Altere os incidentes e o enredo sempre que o andamento do processo sugerir alterações, sem jamais se ater a qualquer esquema prévio. Se em algum ponto o desenvolvimento revelar novas oportunidades de efeito dramático ou de narração vívida, faça os acréscimos necessários – depois volte atrás e reconcilie as pares preexistentes com o novo plano. Acrescente e exclua seções inteiras de acordo com o necessário ou com o desejado, tentando diferentes inícios e fins até encontrar o melhor arranjo. Certifique-se de que todas as referências ao longo da história estejam completamente adaptadas ao esquema final. Remova todas as excrescências possíveis – palavras, frases, parágrafos ou mesmo episódios e elementos inteiros –, tomando as precauções habituais em relação a conciliar todas as referências.

4 – Revise todo o texto, com especial atenção ao vocabulário, à sintaxe, ao ritmo da prosa, à proporcionalidade das partes, às sutilezas do tom, à graça e ao poder persuasivo das transições (de uma cena a outra, da ação lenta e detalhada à ação rápida e superficial e vice versa), à eficácia do início, do fim, dos clímaxes, etc., ao suspense e ao interesse dramático, à plausibilidade, à atmosfera e a vários outros elementos.

5 – Prepare uma cópia datilografada* – acrescentando revisões finais conforme o necessário. 

H.P.Lovecraft.
Data desconhecida.



*nos dias atuais, impressa.

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

Pinguins e Mandelas

Há exatos 19 meses escrevi a crônica abaixo, publicada no blog "Um cientista no telhado":

Pinguins e Mandelas

          A revista eletrônica do Smithsonian Institute publicou um artigo excelente sobre pinguins africanos*. Não mude de canal, prometo que vai ficar interessante.
          O autor escreve sobre meio ambiente e é um fotógrafo premiado. O texto é acompanhado de fotos e filmes produzidos junto a uma equipe de cientistas que estuda esta variedade de ave, a qual se encontra no rumo da extinção (os pinguins, não os cientistas). Aliás, entre outras coisas aprendi que, diferente do que eu pensava, não apenas há diversas variedades de pinguins fora da Antártida, como são poucas as espécies que gostam de viver on the rocks.

          A particularidade é que estes pinguins habitam uma ilha a uns dez quilômetros da costa sul-africana. Lá mantém seus ninhos em torno de uma prisão desativada dentro da qual, junto com outros companheiros de luta, Nelson Mandela viveu dezoito dos vinte e sete anos em que ficou encarcerado pelo regime doapartheid sul-africano**.
          Ou seja, o artigo trata de duas espécies em extinção. Pinguins africanos e líderes humanos do bem. Muito embora a já tardia agenda ambiental seja mais do que necessária e bem-vinda, parece que hoje em dia muitas cabeças pensantes andam desinteressadas da segunda espécie.
          Talvez porque se considere que meio ambiente tornou-se um tópico indiscutivelmente universal, enquanto as mazelas dos outros não nos dizem respeito. Afinal, cada famíia infeliz não o é à sua maneira? Mas não é boa idéia nos conformar com um único medo. Mandelas e outros exemplares dessa espécie rara de bicho-homem farão muita falta em futuro próximo.

Rafael Linden

* O artigo de Charles Bergman sobre os pinguins está no link http://www.smithsonianmag.com/travel/Make-Way-for-the-African-Penguins.html
** Outro artigo, de Scott Johnson, sobre a prisão na Ilha Robben está no linkhttp://www.smithsonianmag.com/travel/Robben-Island-A-Monument-to-Courage.html

segunda-feira, 16 de setembro de 2013

ATORMENTADO


ESCREVER É MUITO MAIS DO QUE O 
SIMPLES ATO QUER SER EM SUA SOLIDÃO.
É NECESSIDADE QUE EXPLODE.
PRESSÃO. LAVA QUE DERRAMA.
SÃO PENSAMENTOS QUE ATORMENTAM. 
NÃO SE PODE MAIS GUARDAR.
SÃO IDÉIAS QUE AFAGAM, ACALMAM, 
MAS PRECISAM TE DEIXAR.
AS MÃOS JÁ NÃO PERTENCEM 
AO CORPO QUE AS COMPLETA.
É ATO DESORDEIRO. 
O AVESSO DA VONTADE. 
PURO ACONTECIMENTO.
AS PALAVRAS TÊM VONTADE PRÓPRIA. 
ASSUMEM O COMANDO. 
DERRAMAM DO INTELECTO, 
SE TORNAM INDEPENDENTES.
CRIAM E DESTROEM AMORES.
CONSTROEM MURALHAS, DEPOIS AS DERRUBAM.
É PURO PODER QUE FOGE DO CONTROLE -CUIDADO!
ESCREVER É INSANO E INEVITÁVEL. 
ATO QUE DÓI E DESTROÇA.
DEVASSA A ALMA.

Adriana Carrilho Barbosa Lima

terça-feira, 20 de agosto de 2013

Ele a viu de longe...


                                              Ele a viu de longe...

 

Ele a viu de longe, pela primeira vez, no campus da universidade onde trabalhava. A imagem dela, os cabelos longos e brilhantes sob o efeito do vento o impressionaram... Havia leveza no modo como se movimentava, ela não era uma moça qualquer. Nela nada havia de vulgar ou comum, ela era simples, mas era única.

Por sorte, os horários dele tinham sintonia com os dela, e outros encontros fortuitos aconteceram e o deixaram mais alegre. Ela ainda não o tinha notado, ele era apenas mais um professor da universidade, tomando café no bar. Nada de especial chamava a atenção dela sempre preocupada com as provas e monografias.

Um dia, se encontraram no elevador, ele sentiu um calafrio, sentiu o perfume dela e até o calor do seu corpo quando se esbarram ao sair. Aquela sensação deliciosa de proximidade o acompanhou por muitos dias.  O semestre acabou e as férias chegaram. Neste verão ele não viajou, ficou em casa na companhia de seus livros e saiu poucas vezes para visitar amigos. Aos sábados, ia até o café da esquina e via Clara (este era seu nome) em todas as moças magras e elegantes que passavam casualmente pela rua. Clara, bonito nome - pensou.

Novo semestre se inicia, o destino resolve ajudar o professor.  Sua musa decide acompanhar alguns amigos e fazer a matéria dele como eletiva. Primeira aula, lá está ela sentada na primeira fila, conversando animada com os colegas. A inércia toma conta dos movimentos dele por alguns segundos ao vê-la, mas logo se refaz , cumprimenta a turma e inicia a aula. Ela comenta com os amigos que o professor conhece a fundo o assunto e fica positivamente impressionada.

Sempre assídua, não falta nenhuma aula e com um pouco de mágica forma-se uma conexão entre eles.  Os amigos dela, antigos alunos do professor, marcam um chope. A noite transcorre alegre e animada, ao saírem o professor pergunta se ela quer uma carona, levemente tímida, ela aceita. Ao saber, que iriam de táxi, ela se sente mais a vontade e elogia as aulas.  Ele aproveita o clima e pergunta se ela se forma neste semestre.  Ainda não sei – respondeu sem cerimônia. Estou em dúvida sobre o trabalho final – continuou - E o que fazer a seguir vou pensar mais um semestre- concluiu. Gentilmente, ele se oferece para orientá-la se necessário. Ela sorri agradecida.

As dúvidas dela serviram de pretexto para muitos outros encontros e conversas; aos poucos, ela descobriu o homem sensível, culto e cativante que se escondia debaixo da máscara do sério professor Theo.

Theo se apaixonou não apenas pela forma elegante, jovem e viva de ser de Clara, mas também por sua delicadeza, sensibilidade e educação. A diferença de idade era expressiva, entretanto a sintonia emocional era perfeita. Os amigos torciam por eles, o namoro se solidificou e Clara iniciou o mestrado, fez sua tese sobre Henri Bérgson (um dos filósofos favoritos de Theo). Convivendo com Clara, Theo remoçou alguns anos, incorporando mais leveza ao seu viver.

Para comemorar a conclusão do mestrado de Clara, planejaram uma viagem à França. Começaram por Paris e de lá partiram rumo a Nice onde iniciaram a visita às cidades da Riviera Francesa – Mônaco, Antibes, St. Tropez e Cannes, e não faltou uma visita ao Cassino de Monte Carlo. Os dias foram de sol e clima quente sem exageros, as noites embaladas a vinho branco gelado, aproveitando a vida noturna das cidades durante o verão europeu.

As férias na França foram inesquecíveis, recordações maravilhosas que até hoje enchem de alegria o coração de Theo.  Poucos dias, após a volta ao Rio, Clara sentiu-se mal e desmaiou – amigos mais próximos apostaram numa provável gravidez, depois de viagem tão romântica. Infelizmente estavam todos errados.  Ela estava com câncer e morreu seis meses depois; Theo perdeu o rumo, não sabia para onde ir tamanha era a tristeza que encharcava sua vida. Sentia uma falta imensa da alegria e vivacidade de Clara.  

Já faz algum tempo que Clara partiu, mas ele ainda pensa muito nela.   E frequentemente, no escuro do seu quarto, sozinho, revê as fotos da viagem tentando amenizar a saudade que sente. Theo ainda não digeriu a perda do seu grande amor, ele continua dando aulas na universidade e sonha em ver de longe alguém como ela...

 

Bebel Pozzi

Junho 2013

Brilhantes Olhos Azuis


                                          Brilhantes olhos azuis

 

A amizade entre nossas famílias já fazia tempo, quando o fato que vou contar aconteceu - a imagem da sua entrada triunfal na festa de 70 anos do meu pai. Ela estava deslumbrante num vestido preto bem decotado e o pescoço adornado por um belíssimo colar de pérolas. Apesar do vestido preto, ela brilhava no salão como se vestisse ouro atraindo olhares masculinos. Irradiava luz e vida com sua pele bronzeada e simpatia.  Nossa festa transcorreu tranquila e ela com seu olhar observador percebeu ser  o assunto da noite entres eles (homens).

Alguns anos se passaram depois daquela noite quente de verão, uns se foram e outros chegaram e as famílias amigas se tornaram uma só. Meu pai viúvo não resistiu aos belos e brilhantes olhos azuis dela. A sua alegria e o entusiasmo transformaram a vida dele, com muitos amigos, festas e viagens.  Ganhamos nós também uma casa nova com piscina, churrascos e almoços no jardim. E muitas conversas e presentes. Ela gosta muito de conversar e coleciona álbuns de fotografia de suas viagens. Com fotos de verdade, impressas à moda antiga e classificadas por nome e lugar.

Para os mais novos, ela é a vovó, cheia de energia que gosta de brincar e ir ao teatro. Para os mais velhos, ela tem sempre aquele olhar atento e observador para ver se tudo está perfeito.

Ela continua brilhando e fazendo festas. Ao completar 75 anos, comemoramos com uma noite maravilhosa regada à boa bebida, música, gente bonita e máscaras que deram um tom a mais ao evento. Segundo ela toda sua alegria era fruto de poder festejar os 15 anos pela quinta vez – com saúde e ótima forma física - uma benção divina!

Recentemente, fomos a um casamento juntas e desta vez o vestido  dela era longo e roxo como o traje dos bispos e o lindo colar de pérolas voltou a circular pelos salões. A elegância contava com seu melhor adereço: as brilhantes contas azuis que emanam luz própria e energia.

Meu pai está cada dia mais jovem e bem disposto e já faz planos para  comemorar seus 90 anos, que estão quase chegando...  Nós continuamos  contentes por contar com a ajuda da madrastinha boa que cuida da gente com carinho e generosidade.

 

Bebel Pozzi

18/08/2013

terça-feira, 6 de agosto de 2013

Olha


 
           Inhotim/ Oiticica


             Olha...
                Permita-se!
                    Olha bem...
                       Olha além desta janela...
                            Faz um esforço.
                                Olha além da forma...
                                        Busca!
                                             O que vê!?
                                                 Fala!
                                                     Me diz...