terça-feira, 10 de dezembro de 2013

Dicas de escrita de H.P. Lovecraft

Olá, amigos!
Hoje não venho aqui publicar nenhuma obra original, mas apenas repassar algo de interessante com que me deparei esta semana.
Resolvi reler uma coletânea de contos de H.P Lovecraft que eu tenho há algum tempo - eu e a Pina já comentamos diversas vezes sobre Lovecraft em nossos encontros, lembram? - e me deparei com um apêndice muito interessante em uma dessas edições. É um pequeno texto do autor no qual ele constrói um passo a passo do seu processo de produção literária, com enfoque para contos - mas que, ao meu ver, poderia muito bem servir para romances também. Como achei muito interessante, repasso para vocês aqui:



O processo de escritura, claro, é tão variado quanto a escolha do tema e da ideia inicial; mas se as histórias de todos os meus contos fossem analisadas, é possível que as seguintes regras pudessem ser abstraídas a partir do procedimento padrão:

1 – Prepare uma sinopse ou um cenário para os acontecimentos na ordem em que ocorreram – não na ordem da narrativa. Descreva com riqueza o suficiente para contemplar todos os pontos vitais e motivar todos os incidentes planejados. Detalhes, comentários e estimativas das consequências às vezes são desejáveis nessa estrutura temporária.

2 – Prepare uma segunda sinopse ou cenário para os acontecimentos – agora na ordem da narrativa (não necessariamente na ordem de ocorrência), com grande riqueza de detalhes e notas relativas a mudanças de perspectiva, ênfases e clímax. Faça as alterações necessárias na sinopse original caso essa mudança aumente o impacto dramático ou a eficácia geral do conto. Interpole ou exclua incidentes à vontade – não se prenda jamais à ideia original, mesmo que o resultado seja um conto absolutamente diferente do planejado. Faça acréscimos e alterações na medida em que ocorrerem durante o processo de formação.

3 – Escreva todo o conto – depressa, com fluência e sem tecer muitas críticas – de acordo com a segunda sinopse, na ordem da narrativa. Altere os incidentes e o enredo sempre que o andamento do processo sugerir alterações, sem jamais se ater a qualquer esquema prévio. Se em algum ponto o desenvolvimento revelar novas oportunidades de efeito dramático ou de narração vívida, faça os acréscimos necessários – depois volte atrás e reconcilie as pares preexistentes com o novo plano. Acrescente e exclua seções inteiras de acordo com o necessário ou com o desejado, tentando diferentes inícios e fins até encontrar o melhor arranjo. Certifique-se de que todas as referências ao longo da história estejam completamente adaptadas ao esquema final. Remova todas as excrescências possíveis – palavras, frases, parágrafos ou mesmo episódios e elementos inteiros –, tomando as precauções habituais em relação a conciliar todas as referências.

4 – Revise todo o texto, com especial atenção ao vocabulário, à sintaxe, ao ritmo da prosa, à proporcionalidade das partes, às sutilezas do tom, à graça e ao poder persuasivo das transições (de uma cena a outra, da ação lenta e detalhada à ação rápida e superficial e vice versa), à eficácia do início, do fim, dos clímaxes, etc., ao suspense e ao interesse dramático, à plausibilidade, à atmosfera e a vários outros elementos.

5 – Prepare uma cópia datilografada* – acrescentando revisões finais conforme o necessário. 

H.P.Lovecraft.
Data desconhecida.



*nos dias atuais, impressa.

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

Pinguins e Mandelas

Há exatos 19 meses escrevi a crônica abaixo, publicada no blog "Um cientista no telhado":

Pinguins e Mandelas

          A revista eletrônica do Smithsonian Institute publicou um artigo excelente sobre pinguins africanos*. Não mude de canal, prometo que vai ficar interessante.
          O autor escreve sobre meio ambiente e é um fotógrafo premiado. O texto é acompanhado de fotos e filmes produzidos junto a uma equipe de cientistas que estuda esta variedade de ave, a qual se encontra no rumo da extinção (os pinguins, não os cientistas). Aliás, entre outras coisas aprendi que, diferente do que eu pensava, não apenas há diversas variedades de pinguins fora da Antártida, como são poucas as espécies que gostam de viver on the rocks.

          A particularidade é que estes pinguins habitam uma ilha a uns dez quilômetros da costa sul-africana. Lá mantém seus ninhos em torno de uma prisão desativada dentro da qual, junto com outros companheiros de luta, Nelson Mandela viveu dezoito dos vinte e sete anos em que ficou encarcerado pelo regime doapartheid sul-africano**.
          Ou seja, o artigo trata de duas espécies em extinção. Pinguins africanos e líderes humanos do bem. Muito embora a já tardia agenda ambiental seja mais do que necessária e bem-vinda, parece que hoje em dia muitas cabeças pensantes andam desinteressadas da segunda espécie.
          Talvez porque se considere que meio ambiente tornou-se um tópico indiscutivelmente universal, enquanto as mazelas dos outros não nos dizem respeito. Afinal, cada famíia infeliz não o é à sua maneira? Mas não é boa idéia nos conformar com um único medo. Mandelas e outros exemplares dessa espécie rara de bicho-homem farão muita falta em futuro próximo.

Rafael Linden

* O artigo de Charles Bergman sobre os pinguins está no link http://www.smithsonianmag.com/travel/Make-Way-for-the-African-Penguins.html
** Outro artigo, de Scott Johnson, sobre a prisão na Ilha Robben está no linkhttp://www.smithsonianmag.com/travel/Robben-Island-A-Monument-to-Courage.html