quinta-feira, 20 de junho de 2013

Para sempre Montenegro*


A musa passava em frente ao Veloso, na esquina da Montenegro com a Prudente de Morais e “Olha que coisa mais linda...”. Foi lá que Vinicius escreveu “Garota de Ipanema” na melodia de Tom. Eu então era criança, só ouvi dizer. Anos depois, era de lei encerrar o sábado naquele botequim. Eu, o Juca e o Sergio “Negão”, abreviado “Nêga”, quando não havia politicamente correto, só correto.
            Juca, o desenhista, era boa pinta. Um dia botou a cabeça para fora do meu Fusca e, com fé no bigode, alvejou a menina mais bonita na calçada da praia de Ipanema: “Ei, gatinha, vou lhe contar uma história linda igual a você...”. Ignorado, queixou-se: “Puxa, nem me deu bola. Orgulhosa...”. E como, ainda assim, não capturasse os olhos da presa, completou com admirável finesse: “Vai cair do orgulho e...dar com os córneos no chão!”. Hora de acelerar e sumir na direção do Arpoador: “Porra, Juca, vai ser grosso assim no inferno!”.
Depois de tal proeza foi proibido de abrir a boca. Sua missão era exibir a estampa e, na primeira flechada certeira, um dos outros falaria pelos tres. Às vezes nem isso dava certo e só nos restava a Mãe de Todas as Cantadas Cretinas “A senhorita não viu, por acaso, um canguruzinho amarelo que fugiu lá de casa?”. A probabilidade de sucesso era a mesma de cravar os treze pontos na loteria esportiva.
O Nêga cursava (modo de dizer) Engenharia e era câmera de estúdio na TV Globo. Acabou promovido ao controle mestre, mandando as imagens ao ar. Isso bastou para nos dar passe livre na emissora de onde, no fim de turno, saíamos para a noitada. Certa vez apresentei minha prima mais nova ao Nêga e combinamos um cinema. Daí por diante ele passou a divulgar para todos o sermão que lhe passei no caminho para pegar as meninas: “Olha lá, hein! É minha prima, viu? Não faça, não aconteça, não isse, não aquile e nem pense em aquiloutrar!”. Eu bem sabia o pilantra que...éramos. Dizia ele que ficou a noite inteira mudo, com as mãos para trás.
Por volta dos vinte anos de idade morávamos em Botafogo, a menos de duzentos metros uns dos outros. As raras namoradas “firmes” eram recambiadas bem cedo, por ordem de pais zelosos, desconfiados do que lhes parecia um bando de celerados (logo nós, tutti buona gente!). Alforriados, rumávamos para Ipanema, ocasionalmente rebocando amigas ou irmãs de alguém, portadoras de sinais de “Mantenha distância”. Às vezes achegavam-se respeitáveis cavalheiros, como o Bode, o Campista, o Piu-Piu e outras figuraças. Noutras, a sessão começava cedo com nomes mais comuns, como o Paul, o Miguel, o Zé Roberto, ou o Martinho e seu irmão Paulinho (que, na época, passava o dia inteiro deitado no sofá, fumando um cigarro atrás do outro e, incrivelmente, metamorfoseou-se no guru de malhação Paulo “Cintura”). Gastávamos o sábado gravando imitações grotescas de anúncios de rádio ou televisão, ou inventando o roteiro de um filme, felizmente abandonado antes de qualquer imagem.
Esticar o sábado à noite no Veloso era obrigatório e a pauta oficial era jogar conversa fora, numa das mesas do Zé. Grande Zé! Nem alto nem baixo, nem magro nem gordo, um pouco calvo, meio sério, dois terços gaiato, boa praça inteiro. Domingo era para dormir até tarde, então o tempo não passava. Nenhum de nós bebia muito, a grana era curta e nos limitava, em geral, a umas duas caipirinhas, ou uns tres chopes, consumidos lentamente e diluídos em tira-gosto. Mesmo assim éramos bem-vindos, a noite toda, num tempo de menos pressa, menos ganância. O Zé ficava esperto e, às vezes, perguntava “Não prefere uma coca-cola?”. Lá pelas tantas, já de tamancos, jogava desinfetante e passava o esfregão no chão. “Não se incomodem comigo”. Botávamos os pés nas cadeiras vazias e ficávamos lá até acabar a limpeza.
Pouco antes do fim do expediente, o garçom avisava: “Tá na hora de fechar, vai a saideira?”. Um dia alguém falou: “Traz qualquer coisa”. Ele voltou com um copo de chope cheio dum líquido cor de tamarindo, uma casquinha de limão e duas pedras de gelo boiando. “Que diabo é isso?”. “O que vocês pediram. Por conta da casa”. O mais corajoso deu um gole. “Muito bom. Mas o que é?”. E ele “Sei lá, misturei o que tinha em quatro garrafas quase vazias que estavam na frente da prateleira. Vai manso, viu?”. Era qualquer coisa mesmo. Passou na roda feito cachimbo da paz. O Zé poderia ser premiado por aquilo em algum concurso de drinques, se ao menos soubesse o quanto do que tinha posto no copo.
Naquela esquina era tudo amor e paz. Brigas, raríssimas. Só me lembro de uma, que começou pequena no fundo do bar e virou pancadaria. Garçons e cozinheiros tentavam apartar, mas a coisa estava ficando feia e a turma, junto com outros fregueses, já se abrigava prudentemente na calçada do outro lado da...Prudente. Ironizavam a confusão à distância até darem por minha falta. Medraram por pouco tempo. Logo fui aplaudido ao atravessar a rua carregando tres copos. “Salvei os chopes”.
Havia, é claro, notórios cachaceiros que moravam por perto e tinham mesas cativas. Um deles era o Cabelinho, patrimônio de Ipanema. Todo dia lá e jamais alguém o viu sóbrio. E sempre aparecia algum desconhecido solitário. Numa noite, na mesa ao lado, um sessentão só largava do uísque para rir das besteiras que dizíamos. O Zé apontou “Aquele ali parece gente fina, mas tá pra cair. Alguém vai ter que levar ele em casa”. “Ele não mora por aqui?”. “Nunca vi, ele veio de carro”.
O sujeito entrou na conversa: “Vocês são estudantes? Meu filho também, está quase se formando. É um gozador igualzinho a vocês”. Seguiu-se nonsense e gargalhadas até que o homem resolveu partir. Levantou-se e congelou “Não dá”. Sentou de novo. E o Zé “Eu avisei, alguém tem de dirigir, senão ele não chega”. Ele concordou “É mesmo, vocês me ajudam?”. Ressabiados, sem saber direito no que nos metíamos, confabulamos e concluímos estar em número suficiente para enfrentar imprevistos. “Cadê o carro?”. Ele apontou um Mercedes esporte, último tipo, branco, reluzente, do outro lado da Montenegro. O mais afoito arregalou os olhos e gritou: “Eu dirijo!”. E fomos, uns cinco ou seis rapazes, duas ou tres moças, e mais o velhote em tres automóveis, um dos quais o carrão pilotado, uma vez na vida, por um eufórico Zé Roberto.
Chegamos a um edifício chique, com um baita jardim na frente, bem no início da Praia de Botafogo. Após rápido diálogo com o morador, o porteiro fez sinal para entrarmos. A esta altura alguns beiravam o pânico, mas todos estavam curiosos. Outro porteiro abriu, solenemente,  as portas de todos os automóveis e convidou-nos a tomar o elevador. No topo, depois de várias tentativas, o cidadão conseguiu domar a fechadura e disse: “Entrem, vocês me fizeram rir muito, vamos fazer um brinde!”.
O apartamento tinha um salão gigantesco com múltiplos ambientes, uma varanda de cinema, estatuetas, quadros raros nas paredes, um monte de suites, lavabos e banheiros, esses últimos rapidamente explorados, pois deixáramos o Veloso sem a visita protocolar ao cubículo. Uma copeira engomadinha materializou-se com gelo, uísque, refrigerantes e salgadinhos, enquanto nosso anfitrião acionava um jazz de primeira. Perguntamos em que trabalhava. “Vivo de renda”, rebatido com a piada inevitável “...confecção?”. O coroa quase engasgou de rir. Daí em diante contou histórias, hilariantes ou horripilantes, de gente bacana e famosa. Aproveitou a excursão das meninas ao banheiro para piadas escabrosas. E repetiu várias vezes que fazia tempo não achava tanta graça em nada.
Pelas quatro da manhã chegou o filho. Deu um beijo na testa do pai e um oi geral, serviu-se do uísque e juntou-se ao grupo como se aquilo fosse rotina. Devia ser. Aos poucos dispensamos a bebida, e foi quando o sol nasceu. Apreciamos o clarear do dia naquele varandão, num silêncio respeitoso, ao som de John Coltrane. Enquanto isso, a empregada arrumou uma mesa enorme e serviu café da manhã. Malgrado o risco saimos de lá, depois das oito, incólumes e incrédulos, certos de que uma aventura daquelas, com final feliz, só podia começar no Veloso.
Mas uma noite, quando chegamos ao bar, soubemos que o Zé tinha morrido, afogado numa praia em Niterói. Com tristeza, cada um de nós derramou, no chão, um chorinho de bebida e fizemos um brinde para nos despedir do “nosso” garçom. Qualquer coisa, nunca mais.
O tempo nos dispersou. Só vi o Juca mais uma vez, rapidamente, ainda morando em Botafogo. O Nêga emigrou para a Espanha. De vez em quando, trocamos notícias e besteiras clássicas por correio eletrônico. Mudamos muito e nada. “Garota de Ipanema”, já naquela época, era emblema do Rio de Janeiro. Vinicius nos deixou, a todos, órfãos de seus poemas, das letras de música que escreveu e das que não escreveu. Porém, assim como os mais velhos, que foram testemunhas da garota, nunca precisaremos de mementos para lembrar da Ipanema dos anos setenta.
Mas, como se sabe, donos e mandatários têm o costume de gravar memórias em placas e reduzir pessoas a logradouros, para soi disant homenageá-las, no fundo com o propósito de se promover ao descerrar a placa ou cortar a fita. E assim fizeram com aqueles ícones de juventudes, alegrias e emoções. O Veloso mudou de nome e de caráter para Garota de Ipanema, no mesmo endereço, que um prefeito qualquer resolveu rebatizar de esquina da rua Vinicius de Moraes com a Prudente.
A canção não precisava virar bar, já era hino e ganhara o mundo. O poeta merecia mais, ele não é só rua. Também é praça, praia, bairro, cidade, país inteiro. E - supremo disparate - para perpetuar a garota que passava por Vinicius, acabaram por perpetrar “uma” Vinicius que passa por “um” Garota. Pois eu não abro mão de enquadrar minhas lembranças nos cenários originais. Aqui, portanto, decreto que o bar continuará Veloso. A rua, para sempre Montenegro.

Rafael Linden

* Publicado originalmente no blog "Um cientista  no telhado" http://umcientistanotelhado.blogspot.com.br
 em 19 de abril de 2012. 


quinta-feira, 13 de junho de 2013

Chove a Vida


Hoje começou a chover e não parou. Quando o dia chove, chove a alma chove a vida. Acredito que a chuva faça você pensar, me faz pensar. Me recolho dentro de mim. É que chuva diminui o ritmo. Dirige-se mais devagar, anda-se com mais cuidado, mastiga-se mais lentamente e dorme-se encolhidinho. Chuva é zelo.

Quando pequena, em Brasília, cidade seca, chuva era festa, alegria, era o próprio respirar. Corria para o quintal e ficava acolhida pelos grandes galhos da mangueira. Nós duas, eu e minha árvore, crescemos juntas e trocamos confidências durante anos. Nós celebrávamos cada pingo. Quando fui embora da casa em que cresci foi a única saudade que não curei, ainda dói. Minha mangueira.

Tem chuva que quase não molha, tem chuva que arrebata e até machuca, tem chuva rápida, tem chuva de verão e tem chuva que vem para ficar. Como os amores na adolescência. Foram muitas chuvas e com elas aprendi que toda chuva passa, me arrependi e até fiquei doente após algumas chuvas e amei, amei cada gota de chuva, chuvisco ou temporal. Na adolescência me molhei!

A chuva faz proteger os filhos. Chove que eu cuido. É um agasalho quentinho, uma capa de chuva ou um guarda chuva. É amor que transborda junto com a água desaguando sobre nós. Cuidar na chuva é diferente. Tem que ficar protegido, pede-se colo.

As vezes, a chuva entristece gente, destrói dolorido, acaba com abrigos, afoga famílias, interrompe histórias. Sai molhando tudo, só não molha o mar. Quando é assim a chuva brota nos olhos também. Chuva é coisa divina que hora falta, hora sobra. Tem reza para chover e tem reza para cessar, chuva é assim...

Num dia chuvoso abre-se um livro, abre-se um vinho, toma-se sopa, brinda-se com chá, abre-se o coração... Tudo é diferente porque temos tempo para desacelerar, para esperar a chuva passar. Chuva é bom sozinho para mergulhar nas vontades, relembrar as histórias e planejar novos rumos. Mas, é bom juntinho também, ficar abraçado, repetir declarações, refazer promessas e planejar viagens. O importante é chover com a chuva!

                                                                                                         
                                                                                            Adriana Barbosa Lima

Que bom temos um blog! Um caminho para seguir...um espaço para continuar...

"Quero escrever movimento puro." Clarice Lispector

sexta-feira, 7 de junho de 2013

Para quem estava com curiosidade, mas não pôde vir ao encontro no dia, aí vai o final do conto "A Fotografia", de Anne-Marie C. Damamme:


Mais ou menos um mês depois, seus filhos discutiam um projeto proposto por uma das filhas de Louise. Tratava-se de fazer ou não uma imagem mortuária...
-Vocês estão loucos! Hoje em dia ninguém mais faz isso!
-Talvez, mas mamãe gostava!
-Tem alguma foto? disse um dos filhos.
-A última foi aquela que Louise detestava, disse Sévérine. Vou buscar.
Todos a examinaram com cuidado.
-Mamãe está ótima!
-É bem ela, seu sorriso.
-Um ar tão sólido, tanto frescor!
Todos concordaram.
A imagem mortuária agradou muito.

Boas Vindas!

Saudações a todos!
Este será o nosso espaço para compartilhar textos (tanto nossos quanto dos nossos queridos autores já consagrados), opiniões e feedbacks. Propagandas de eventos culturais, literários, novas oficinas e todas as demais atividades do gênero serão igualmente bem vindas!
Divirtam-se escrevendo e lendo bastante!