terça-feira, 20 de agosto de 2013

Ele a viu de longe...


                                              Ele a viu de longe...

 

Ele a viu de longe, pela primeira vez, no campus da universidade onde trabalhava. A imagem dela, os cabelos longos e brilhantes sob o efeito do vento o impressionaram... Havia leveza no modo como se movimentava, ela não era uma moça qualquer. Nela nada havia de vulgar ou comum, ela era simples, mas era única.

Por sorte, os horários dele tinham sintonia com os dela, e outros encontros fortuitos aconteceram e o deixaram mais alegre. Ela ainda não o tinha notado, ele era apenas mais um professor da universidade, tomando café no bar. Nada de especial chamava a atenção dela sempre preocupada com as provas e monografias.

Um dia, se encontraram no elevador, ele sentiu um calafrio, sentiu o perfume dela e até o calor do seu corpo quando se esbarram ao sair. Aquela sensação deliciosa de proximidade o acompanhou por muitos dias.  O semestre acabou e as férias chegaram. Neste verão ele não viajou, ficou em casa na companhia de seus livros e saiu poucas vezes para visitar amigos. Aos sábados, ia até o café da esquina e via Clara (este era seu nome) em todas as moças magras e elegantes que passavam casualmente pela rua. Clara, bonito nome - pensou.

Novo semestre se inicia, o destino resolve ajudar o professor.  Sua musa decide acompanhar alguns amigos e fazer a matéria dele como eletiva. Primeira aula, lá está ela sentada na primeira fila, conversando animada com os colegas. A inércia toma conta dos movimentos dele por alguns segundos ao vê-la, mas logo se refaz , cumprimenta a turma e inicia a aula. Ela comenta com os amigos que o professor conhece a fundo o assunto e fica positivamente impressionada.

Sempre assídua, não falta nenhuma aula e com um pouco de mágica forma-se uma conexão entre eles.  Os amigos dela, antigos alunos do professor, marcam um chope. A noite transcorre alegre e animada, ao saírem o professor pergunta se ela quer uma carona, levemente tímida, ela aceita. Ao saber, que iriam de táxi, ela se sente mais a vontade e elogia as aulas.  Ele aproveita o clima e pergunta se ela se forma neste semestre.  Ainda não sei – respondeu sem cerimônia. Estou em dúvida sobre o trabalho final – continuou - E o que fazer a seguir vou pensar mais um semestre- concluiu. Gentilmente, ele se oferece para orientá-la se necessário. Ela sorri agradecida.

As dúvidas dela serviram de pretexto para muitos outros encontros e conversas; aos poucos, ela descobriu o homem sensível, culto e cativante que se escondia debaixo da máscara do sério professor Theo.

Theo se apaixonou não apenas pela forma elegante, jovem e viva de ser de Clara, mas também por sua delicadeza, sensibilidade e educação. A diferença de idade era expressiva, entretanto a sintonia emocional era perfeita. Os amigos torciam por eles, o namoro se solidificou e Clara iniciou o mestrado, fez sua tese sobre Henri Bérgson (um dos filósofos favoritos de Theo). Convivendo com Clara, Theo remoçou alguns anos, incorporando mais leveza ao seu viver.

Para comemorar a conclusão do mestrado de Clara, planejaram uma viagem à França. Começaram por Paris e de lá partiram rumo a Nice onde iniciaram a visita às cidades da Riviera Francesa – Mônaco, Antibes, St. Tropez e Cannes, e não faltou uma visita ao Cassino de Monte Carlo. Os dias foram de sol e clima quente sem exageros, as noites embaladas a vinho branco gelado, aproveitando a vida noturna das cidades durante o verão europeu.

As férias na França foram inesquecíveis, recordações maravilhosas que até hoje enchem de alegria o coração de Theo.  Poucos dias, após a volta ao Rio, Clara sentiu-se mal e desmaiou – amigos mais próximos apostaram numa provável gravidez, depois de viagem tão romântica. Infelizmente estavam todos errados.  Ela estava com câncer e morreu seis meses depois; Theo perdeu o rumo, não sabia para onde ir tamanha era a tristeza que encharcava sua vida. Sentia uma falta imensa da alegria e vivacidade de Clara.  

Já faz algum tempo que Clara partiu, mas ele ainda pensa muito nela.   E frequentemente, no escuro do seu quarto, sozinho, revê as fotos da viagem tentando amenizar a saudade que sente. Theo ainda não digeriu a perda do seu grande amor, ele continua dando aulas na universidade e sonha em ver de longe alguém como ela...

 

Bebel Pozzi

Junho 2013

Brilhantes Olhos Azuis


                                          Brilhantes olhos azuis

 

A amizade entre nossas famílias já fazia tempo, quando o fato que vou contar aconteceu - a imagem da sua entrada triunfal na festa de 70 anos do meu pai. Ela estava deslumbrante num vestido preto bem decotado e o pescoço adornado por um belíssimo colar de pérolas. Apesar do vestido preto, ela brilhava no salão como se vestisse ouro atraindo olhares masculinos. Irradiava luz e vida com sua pele bronzeada e simpatia.  Nossa festa transcorreu tranquila e ela com seu olhar observador percebeu ser  o assunto da noite entres eles (homens).

Alguns anos se passaram depois daquela noite quente de verão, uns se foram e outros chegaram e as famílias amigas se tornaram uma só. Meu pai viúvo não resistiu aos belos e brilhantes olhos azuis dela. A sua alegria e o entusiasmo transformaram a vida dele, com muitos amigos, festas e viagens.  Ganhamos nós também uma casa nova com piscina, churrascos e almoços no jardim. E muitas conversas e presentes. Ela gosta muito de conversar e coleciona álbuns de fotografia de suas viagens. Com fotos de verdade, impressas à moda antiga e classificadas por nome e lugar.

Para os mais novos, ela é a vovó, cheia de energia que gosta de brincar e ir ao teatro. Para os mais velhos, ela tem sempre aquele olhar atento e observador para ver se tudo está perfeito.

Ela continua brilhando e fazendo festas. Ao completar 75 anos, comemoramos com uma noite maravilhosa regada à boa bebida, música, gente bonita e máscaras que deram um tom a mais ao evento. Segundo ela toda sua alegria era fruto de poder festejar os 15 anos pela quinta vez – com saúde e ótima forma física - uma benção divina!

Recentemente, fomos a um casamento juntas e desta vez o vestido  dela era longo e roxo como o traje dos bispos e o lindo colar de pérolas voltou a circular pelos salões. A elegância contava com seu melhor adereço: as brilhantes contas azuis que emanam luz própria e energia.

Meu pai está cada dia mais jovem e bem disposto e já faz planos para  comemorar seus 90 anos, que estão quase chegando...  Nós continuamos  contentes por contar com a ajuda da madrastinha boa que cuida da gente com carinho e generosidade.

 

Bebel Pozzi

18/08/2013

terça-feira, 6 de agosto de 2013

Olha


 
           Inhotim/ Oiticica


             Olha...
                Permita-se!
                    Olha bem...
                       Olha além desta janela...
                            Faz um esforço.
                                Olha além da forma...
                                        Busca!
                                             O que vê!?
                                                 Fala!
                                                     Me diz...

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Má Notícia

                                                OBRA DE BELMIRO DE ALMEIDA


Má Notícia


Ela sempre esperou aquela notícia, sempre soube que chegaria. Mas ainda assim, quando aconteceu, seu mundo ruiu. Era o fim. Acabavam seus sonhos e pesadelos. Alegrias e angústias. Terminava sua existência.

Ela era indomável. Sempre foi assim... Fez suas escolhas, tomou decisões, enfrentou o mundo e seus preconceitos. Ele era um fraco, um poeta atormentado, apenas lutava em suas palavras, mas, diante da realidade, se encolhia e aceitava.

Se conheceram no inverno, cercados de pessoas vazias, mas cheias de si. Era mais uma tarde de chá na casa do Conde D'Azur. Toda a elite estava ali reunida. Pessoas selecionadas que se gabavam de suas vestimentas e exibiam seu profundo vazio disfarçado em longas risadas e conversas sobre o tempo. Era apenas isso que acontecia entre uma e outra xícara de chá inglês da melhor qualidade.

Ah! A música era boa, sempre bem escolhida. Tchaikovsky, Sonhos de Inverno. Sua música preferida. Ela compreendia bem este compositor. Cada nota penetrava seus ossos e arrepiava seu corpo por inteiro. Esta sensação que buscava no outro, queria uma paixão que arrebatasse seus sentimentos, que a fizesse ver estrelas. E nunca aceitou menos que isso. Não foi fácil. Sua existência feminina não lhe permitia tantos quereres. Ela desejava e sonhava com seus prazeres. Em silêncio.

Naquela tarde o conhecera. Interessante. Ele também não se encaixava naquele quadro, onde tudo estava na mesma sintonia. E foi assim que começou. Um amor de inverno, uma paixão arrebatadora. Bastou um olhar e eles souberam. Um passeio pelo jardim, algumas palavras, muitos olhares, risadas e brilho no olhar. Ela tinha o encontrado.

Ele se apaixonou. Aquela liberdade o encantara desde o primeiro instante. Era uma mulher sem todas aquelas formalidades que a época exigia. Era uma espécie rara, ao natural, sobretudo livre. Cabelos de fogo, soltos, olhos amendoados e selvagens, pronunciava palavras doces com a mesma facilidade que as ácidas. Olhava dentro dos olhos dele e assim ele se perdia. Ela o despia.

Era um amor impossível. Ele casaria em cinco dias. Era um casamento que juntaria as duas maiores fortunas da região. A noiva, lindíssima, sempre lhe atraiu, mas sabia que não a amava. Uma jovem cuja a maior preocupação era o alinhamento de seu chapéu. Ele sentia quase pena daquela existência tão fútil.

Ela já havia se rebelado contra inúmeros pretendentes e agora carregava este peso em seus ombros.
Seu pai desistira e sentia-se completamente infeliz por estas amarras do destino. Era uma fera indomável. Ela não se encaixava, nunca fez parte daquela sociedade.

O amor aconteceu, não havia opção. Apenas se entregaram e viveram intensamente. Ela nada temia e ele se encantara com a sua bravura. Aquela mulher tão inteira, tão destemida. Bastava um olhar e penetravam um na alma do outro. Era assim, denso.

Ele se casou. Ela sofreu. Não conseguia entender porque ele não tinha a sua força. Ela lutaria com leões e, sem dúvida nenhuma, os derrotaria. Sua natureza era assim, uma guerreira. Ele era um fraco. Ela o amava tanto.

Continuaram se encontrando, sempre conseguiam. E se amavam, como se amavam... Ela não o cobrava. Mas ele conhecia muito bem sua fraqueza e o preço que os dois pagavam por isso. Ele passou a viver atormentado naquela vida dupla na qual não queria encenar. Havia um grito dentro dele, um furacão, não podia viver assim. Seria fatal.

E assim foi. Numa tarde em que a deixara esperando porque não conseguiu desviar a atenção da esposa e de suas visitas, aquele grito que o habitava, saiu. Todos ouviram o som do tiro vindo do escritório. O grito saiu. Era o fim.

Ela recebeu uma carta. Ele a enviara através de um criado. Disse que a estava libertando, pois a amava demais. Aquela música a acompanhava. Tchaikovsky. Sentiu uma dor que atravessava a alma. Doía. Não sabia como continuar.


Adriana Carrilho Barbosa Lima