Ele a viu de longe...
Ele a viu de longe, pela primeira vez, no campus da
universidade onde trabalhava. A imagem dela, os cabelos longos e brilhantes sob
o efeito do vento o impressionaram... Havia leveza no modo como se movimentava,
ela não era uma moça qualquer. Nela nada havia de vulgar ou comum, ela era
simples, mas era única.
Por sorte, os horários dele tinham sintonia com os dela, e
outros encontros fortuitos aconteceram e o deixaram mais alegre. Ela ainda não
o tinha notado, ele era apenas mais um professor da universidade, tomando café
no bar. Nada de especial chamava a atenção dela sempre preocupada com as provas
e monografias.
Um dia, se encontraram no elevador, ele sentiu um calafrio,
sentiu o perfume dela e até o calor do seu corpo quando se esbarram ao sair.
Aquela sensação deliciosa de proximidade o acompanhou por muitos dias. O semestre acabou e as férias chegaram. Neste
verão ele não viajou, ficou em casa na companhia de seus livros e saiu poucas
vezes para visitar amigos. Aos sábados, ia até o café da esquina e via Clara
(este era seu nome) em todas as moças magras e elegantes que passavam
casualmente pela rua. Clara, bonito nome - pensou.
Novo semestre se inicia, o destino resolve ajudar o professor.
Sua musa decide acompanhar alguns amigos
e fazer a matéria dele como eletiva. Primeira aula, lá está ela sentada na
primeira fila, conversando animada com os colegas. A inércia toma conta dos
movimentos dele por alguns segundos ao vê-la, mas logo se refaz , cumprimenta a
turma e inicia a aula. Ela comenta com os amigos que o professor conhece a
fundo o assunto e fica positivamente impressionada.
Sempre assídua, não falta nenhuma aula e com um pouco de
mágica forma-se uma conexão entre eles.
Os amigos dela, antigos alunos do professor, marcam um chope. A noite
transcorre alegre e animada, ao saírem o professor pergunta se ela quer uma
carona, levemente tímida, ela aceita. Ao saber, que iriam de táxi, ela se sente
mais a vontade e elogia as aulas. Ele
aproveita o clima e pergunta se ela se forma neste semestre. Ainda não sei – respondeu sem cerimônia.
Estou em dúvida sobre o trabalho final – continuou - E o que fazer a seguir vou
pensar mais um semestre- concluiu. Gentilmente, ele se oferece para orientá-la
se necessário. Ela sorri agradecida.
As dúvidas dela serviram de pretexto para muitos outros
encontros e conversas; aos poucos, ela descobriu o homem sensível, culto e
cativante que se escondia debaixo da máscara do sério professor Theo.
Theo se apaixonou não apenas pela forma elegante, jovem e
viva de ser de Clara, mas também por sua delicadeza, sensibilidade e educação.
A diferença de idade era expressiva, entretanto a sintonia emocional era
perfeita. Os amigos torciam por eles, o namoro se solidificou e Clara iniciou o
mestrado, fez sua tese sobre Henri Bérgson (um dos filósofos favoritos de
Theo). Convivendo com Clara, Theo remoçou alguns anos, incorporando mais leveza
ao seu viver.
Para comemorar a conclusão do mestrado de Clara, planejaram
uma viagem à França. Começaram por Paris e de lá partiram rumo a Nice onde
iniciaram a visita às cidades da Riviera Francesa – Mônaco, Antibes, St. Tropez
e Cannes, e não faltou uma visita ao Cassino de Monte Carlo. Os dias foram de
sol e clima quente sem exageros, as noites embaladas a vinho branco gelado, aproveitando
a vida noturna das cidades durante o verão europeu.
As férias na França foram inesquecíveis, recordações
maravilhosas que até hoje enchem de alegria o coração de Theo. Poucos dias, após a volta ao Rio, Clara
sentiu-se mal e desmaiou – amigos mais próximos apostaram numa provável
gravidez, depois de viagem tão romântica. Infelizmente estavam todos errados. Ela estava com câncer e morreu seis meses depois;
Theo perdeu o rumo, não sabia para onde ir tamanha era a tristeza que
encharcava sua vida. Sentia uma falta imensa da alegria e vivacidade de Clara.
Já faz algum tempo que Clara partiu, mas ele ainda pensa muito
nela. E frequentemente, no escuro do
seu quarto, sozinho, revê as fotos da viagem tentando amenizar a saudade que
sente. Theo ainda não digeriu a perda do seu grande amor, ele continua dando
aulas na universidade e sonha em ver de longe alguém como ela...
Bebel Pozzi
Junho 2013

