Má Notícia
Ela sempre esperou aquela notícia, sempre soube que chegaria. Mas ainda assim, quando aconteceu, seu mundo ruiu. Era o fim. Acabavam seus sonhos e pesadelos. Alegrias e angústias. Terminava sua existência.
Ela era indomável. Sempre foi assim... Fez suas escolhas, tomou decisões, enfrentou o mundo e seus preconceitos. Ele era um fraco, um poeta atormentado, apenas lutava em suas palavras, mas, diante da realidade, se encolhia e aceitava.
Se conheceram no inverno, cercados de pessoas vazias, mas cheias de si. Era mais uma tarde de chá na casa do Conde D'Azur. Toda a elite estava ali reunida. Pessoas selecionadas que se gabavam de suas vestimentas e exibiam seu profundo vazio disfarçado em longas risadas e conversas sobre o tempo. Era apenas isso que acontecia entre uma e outra xícara de chá inglês da melhor qualidade.
Ah! A música era boa, sempre bem escolhida. Tchaikovsky, Sonhos de Inverno. Sua música preferida. Ela compreendia bem este compositor. Cada nota penetrava seus ossos e arrepiava seu corpo por inteiro. Esta sensação que buscava no outro, queria uma paixão que arrebatasse seus sentimentos, que a fizesse ver estrelas. E nunca aceitou menos que isso. Não foi fácil. Sua existência feminina não lhe permitia tantos quereres. Ela desejava e sonhava com seus prazeres. Em silêncio.
Naquela tarde o conhecera. Interessante. Ele também não se encaixava naquele quadro, onde tudo estava na mesma sintonia. E foi assim que começou. Um amor de inverno, uma paixão arrebatadora. Bastou um olhar e eles souberam. Um passeio pelo jardim, algumas palavras, muitos olhares, risadas e brilho no olhar. Ela tinha o encontrado.
Ele se apaixonou. Aquela liberdade o encantara desde o primeiro instante. Era uma mulher sem todas aquelas formalidades que a época exigia. Era uma espécie rara, ao natural, sobretudo livre. Cabelos de fogo, soltos, olhos amendoados e selvagens, pronunciava palavras doces com a mesma facilidade que as ácidas. Olhava dentro dos olhos dele e assim ele se perdia. Ela o despia.
Era um amor impossível. Ele casaria em cinco dias. Era um casamento que juntaria as duas maiores fortunas da região. A noiva, lindíssima, sempre lhe atraiu, mas sabia que não a amava. Uma jovem cuja a maior preocupação era o alinhamento de seu chapéu. Ele sentia quase pena daquela existência tão fútil.
Ela já havia se rebelado contra inúmeros pretendentes e agora carregava este peso em seus ombros.
Seu pai desistira e sentia-se completamente infeliz por estas amarras do destino. Era uma fera indomável. Ela não se encaixava, nunca fez parte daquela sociedade.
O amor aconteceu, não havia opção. Apenas se entregaram e viveram intensamente. Ela nada temia e ele se encantara com a sua bravura. Aquela mulher tão inteira, tão destemida. Bastava um olhar e penetravam um na alma do outro. Era assim, denso.
Ele se casou. Ela sofreu. Não conseguia entender porque ele não tinha a sua força. Ela lutaria com leões e, sem dúvida nenhuma, os derrotaria. Sua natureza era assim, uma guerreira. Ele era um fraco. Ela o amava tanto.
Continuaram se encontrando, sempre conseguiam. E se amavam, como se amavam... Ela não o cobrava. Mas ele conhecia muito bem sua fraqueza e o preço que os dois pagavam por isso. Ele passou a viver atormentado naquela vida dupla na qual não queria encenar. Havia um grito dentro dele, um furacão, não podia viver assim. Seria fatal.
E assim foi. Numa tarde em que a deixara esperando porque não conseguiu desviar a atenção da esposa e de suas visitas, aquele grito que o habitava, saiu. Todos ouviram o som do tiro vindo do escritório. O grito saiu. Era o fim.
Ela recebeu uma carta. Ele a enviara através de um criado. Disse que a estava libertando, pois a amava demais. Aquela música a acompanhava. Tchaikovsky. Sentiu uma dor que atravessava a alma. Doía. Não sabia como continuar.
Adriana Carrilho Barbosa Lima

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