terça-feira, 30 de julho de 2013

Os Reinos Prósperos




Narrado por Ilguri Aliguieris, com prefácio de Enelidir de Algamanthis, plagiado e ilegalmente divulgado por Li Rocha





Os Reinos Prósperos

Prefácio

Por Enelidir de Algamanthis, Lorde de Ulgamória

O conto a seguir foi romantizado por Ilguri Aliguieris, o elfo, baseado num dos muitos tomos de memórias do grande mago Galbeldore. Os famosos pergaminhos contendo os relatos do mago lhe foram deixados de herança pelo Barão de Hallenfellow para que servissem de base para seus estudos sobre a História da Era de Ouro dos Três Reinos de Kanthireia. Após anos debruçando-se sobre os relatos, período que incluiu inúmeras tentativas frustradas de conseguir uma entrevista com o autor dos documentos, o renomado cronista compilou-os em forma de prosa fantástica, para que pudesse ser lida tal qual a literatura tradicional de Faleresëa. É, pois, com muita honra que eu fui convidado pelo cronista e historiador a escrever a abertura deste trecho da Grande Saga dos Feikírias.
Começo, então, o meu adendo. Embora este primeiro conto se passe dez anos após a Última Batalha, creio que uma breve volta no tempo seja ideal a fim de que o contexto da narrativa se faça melhor localizado. Neste sentido, podemos dizer que tudo começou com a autocoroação do Imperador Thelmund, o Pródigo, e o levante de sua rebelião contra Ulgalmord, o Senhor do Escuro. Ao nascer do sol daquele que seria marcado como o primeiro dia da Quinta Era, os exércitos aliados de todos os povos livres de Kanthireia marcharam sob o comando de Thelmund e se embateram com as forças de Ulgamord aos pés do monte Tlahlgurdók. A Última Batalha, como todos viemos a conhecê-la, durou do alvorecer ao crepúsculo e pôs fim aos sete séculos da Idade das Trevas imposta por Lorde Ulgamord sobre Kanthireia. Muitas vidas foram perdidas em troca da Liberdade, incluindo a do próprio imperador Thelmund, que caiu em batalha ao duelar pessoalmente o Lorde das Trevas. Contudo, a justiça prevaleceu e o Senhor de todo o mal foi destruído nos campos de batalha daquele dia esplendoroso.
Com o Imperador morto, no entanto, o domínio foi dividido por seus três lugares-tenentes: Alorina, a Justa, asseguroupara si o cetro e as terras da Arlísia; Dagmar, o Esperto, sentou-se no trono da Astória e Ellinor, o Ousado, pôs sobre a cabeça a coroa de Thargobar. O povo de Kanthireia prendeu a respiração e relutou em comemorar de imediato o alívio causado pela queda de Ulgamord. Todos permaneceram apreensivos diante da iminente extensão do conflito na forma de uma guerra civil entre os lugares tenentes pela posse total do Império. Porém, algo inesperado ocorreu: reunidos na

quinta-feira, 25 de julho de 2013

Domingo de Maio



Segundo domingo de maio. Dia das mães. É preciso ir ao mercado, abastecer para o almoço. Ando pelas ruas ainda sonolentas do meu bairro. Meu filho me acompanha, com a curiosidade peculiar dos que tem a sua idade. Quer saber onde estão os carros, as pessoas, os ônibus, tão presentes durante a semana. Explico a excepcionalidade da ocasião e ele entende ou finge entender. Entretanto, nós dois nos surpreendemos quando chegamos ao nosso destino: os corredores estreitos do mercado lembram um formigueiro humano, com seu vai-e-vem de gente e carrinhos de compra. Dois pensamentos me alcançam, quase que ao mesmo tempo: 1) aquele é o último lugar do mundo em que eu gostaria de entrar; e 2) da próxima vez, devo sair de casa ainda mais cedo. Sem alternativa, acabamos nos juntando à multidão, no afã de comprar os mantimentos.
Como sempre acontece nessas ocasiões, nossa cesta vai miraculosamente se enchendo de doces e balas, que tento inutilmente descartar pelas prateleiras à medida que avançamos. A conferência da lista de compras é o momento crucial da empreitada, pois dela depende a tranquilidade do restante da manhã. Checo uma, duas vezes. Preciso me certificar de que está tudo ali. Folhas e legumes para a salada; os ingredientes do prato principal: espaguete e creme de leite; sorvete para a sobremesa. Confere. Resta enfrentar a fila do caixa. Muita paciência deve ter o cidadão nessa hora. Escolho a fila que me parece mais promissora.
Chega a nossa vez. A mocinha quer saber se possuímos o cartão do lugar, a fim de nos credenciar para as promoções. Digo que sim. Aguardo que ela registre todos os volumes e entrego o cartão.
– Ih, tinha que ter me dado antes, agora não tenho mais como fazer o desconto.
Cria-se um impasse. Os outros fregueses se impacientam. Todos parecem nos olhar com ares de reprovação. Quero ir embora, mesmo sem o merecido desconto. De repente, um sorriso.
– Vamos registrar tudo de novo, agora passando o cartão primeiro.
Ela chama a supervisora e pede autorização para zerar a registradora. Reinicia o trabalho. No final, empacota tudo e me deseja um bom domingo. É tudo o que anseio, e devolvo o cumprimento. Pensativo, tomo o caminho de volta segurando meu filho pela mão. Tento lembrar a partir de quando o que deveria ser considerado normal e correto passou a nos parecer extraordinário. Não consigo.
Ser cordial não é pecado nem vergonha. A cordialidade de uma desconhecida, forçada a se ausentar de casa naquele domingo tão especial, infelizmente soa agora mais como utopia do que como realidade.
Consegue ser cordial quem é feliz. O assunto remete à historia do francês que, após defender uma tese de doutorado, desistiu da vida acadêmica para viver num monastério budista. Até aí, nada de mais. O que surpreende é que ele foi considerado o homem mais feliz do mundo, conclusão a que chegaram os cientistas da Universidade de Wisconsin depois de medirem a atividade do seu córtex pré-frontal esquerdo, área do cérebro relacionada à felicidade. Prova irrefutável de que não é preciso possuir mais do que o necessário para se viver em harmonia. Ao contrário, parece que o supérfluo e o dispensável acabam se tornando insustentáveis, levando a um estado crescente de ansiedade ao longo dos anos.
            Retorno ao lar envolto por esses pensamentos, mas com a agradável sensação do dever cumprido. Pena que ela só dure até descobrir que a massa correta para a macarronada era o talharim.

Oswaldo Vilella