Narrado por Ilguri Aliguieris, com prefácio de Enelidir de Algamanthis,
plagiado e ilegalmente divulgado por Li Rocha
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Prefácio
Por Enelidir de Algamanthis,
Lorde de Ulgamória
O conto a seguir foi romantizado por
Ilguri Aliguieris, o elfo, baseado num dos muitos tomos de memórias do grande
mago Galbeldore. Os famosos pergaminhos contendo os relatos do mago lhe foram
deixados de herança pelo Barão de Hallenfellow para que servissem de base para
seus estudos sobre a História da Era de Ouro dos Três Reinos de Kanthireia.
Após anos debruçando-se sobre os relatos, período que incluiu inúmeras
tentativas frustradas de conseguir uma entrevista com o autor dos documentos, o
renomado cronista compilou-os em forma de prosa fantástica, para que pudesse
ser lida tal qual a literatura tradicional de Faleresëa. É, pois, com muita
honra que eu fui convidado pelo cronista e historiador a escrever a abertura
deste trecho da Grande Saga dos Feikírias.
Começo, então, o meu adendo. Embora este
primeiro conto se passe dez anos após a Última Batalha, creio que uma breve
volta no tempo seja ideal a fim de que o contexto da narrativa se faça melhor
localizado. Neste sentido, podemos dizer que tudo começou com a autocoroação do
Imperador Thelmund, o Pródigo, e o levante de sua rebelião contra Ulgalmord, o
Senhor do Escuro. Ao nascer do sol daquele que seria marcado como o primeiro
dia da Quinta Era, os exércitos aliados de todos os povos livres de Kanthireia
marcharam sob o comando de Thelmund e se embateram com as forças de Ulgamord
aos pés do monte Tlahlgurdók. A Última Batalha, como todos viemos a conhecê-la,
durou do alvorecer ao crepúsculo e pôs fim aos sete séculos da Idade das Trevas
imposta por Lorde Ulgamord sobre Kanthireia. Muitas vidas foram perdidas em
troca da Liberdade, incluindo a do próprio imperador Thelmund, que caiu em
batalha ao duelar pessoalmente o Lorde das Trevas. Contudo, a justiça
prevaleceu e o Senhor de todo o mal foi destruído nos campos de batalha daquele
dia esplendoroso.
Com o Imperador morto, no entanto, o
domínio foi dividido por seus três lugares-tenentes: Alorina, a Justa,
asseguroupara si o cetro e as terras da Arlísia; Dagmar, o Esperto, sentou-se
no trono da Astória e Ellinor, o Ousado, pôs sobre a cabeça a coroa de
Thargobar. O povo de Kanthireia prendeu a respiração e relutou em comemorar de
imediato o alívio causado pela queda de Ulgamord. Todos permaneceram
apreensivos diante da iminente extensão do conflito na forma de uma guerra
civil entre os lugares tenentes pela posse total do Império. Porém, algo
inesperado ocorreu: reunidos na
Catedral de Lhahil, tendo Múlgur, o Prelado, como mediador, os três reis de Kanthireia firmaram um pacto de divisão de terras, cooperação, paz e amizade entre os recém criados Três Reinos. Este foi o início da Era de Ouro e o fim de todo o medo e ameaça à paz e à justiça.
Catedral de Lhahil, tendo Múlgur, o Prelado, como mediador, os três reis de Kanthireia firmaram um pacto de divisão de terras, cooperação, paz e amizade entre os recém criados Três Reinos. Este foi o início da Era de Ouro e o fim de todo o medo e ameaça à paz e à justiça.
Tendo dito isto, e realçando aquilo que
todos já sabem: que Galbeldore e seus companheiros de armas tiveram
participação crucial nos eventos que levaram à Última Batalha e à queda do
Senhor do Escuro, creio ser seguro darmos início à nossa prosa. Com vossas
senhorias, pois, a primeira parte da saga “Os Reinos Prósperos”, de Ilguri
Aliguieris, originalmente intitulada “A Grande Paz dos Três Reinos de Kanthireia
e como mudaram os hábitos de todos durante este período de bonança, segundo o
ponto de vista de Galbeldore, o Claro”.
Os Reinos Prósperos
Ou
A grande Paz dos Três Reinos de Kanthireia etc...
Um conto de Ilguri, da Casa Aliguieris, baseado nas
memórias de Galbeldore, o Claro.
Interior da
Arlísia, terceiro dia de feira, 28 de Brumário do 10º ano da Quinta Era. Manhã.
Era uma manhã ensolarada do Mês das
Brumas e uma brisa fresca cortava as campinas do ducado de Felrir. A colheita
fora abundante e ainda podia-se trabalhar a terra e colher frutos remanescentes
antes do cair do inverno. O cavalo de Galbeldore trotava ligeiro e bem nutrido
pela impecavelmente bem cuidada estrada do ducado. As estalagens, alocadas a
intervalos regulares do percurso, garantiram uma viagem tranquila, protegida, e
com nutrientes mais que suficientes, tanto para cavaleiro quanto para animal. E
fora um longo trajeto! O reino da Arlísia era um dos maiores de todo o Mundo
Civilizado e quem o olhava no estado irreprochável em que se encontrava então
tinha dificuldade de imaginar que, uma década antes, tudo estava coberto pelo
caos e palas trevas.
Mas a Grande Paz não era pretexto para
descansos para um justiceiro como Galbeldore. Onde houvesse opressão e
injustiça lá estaria ele e os demais membros de sua Sagrada Ordem para garantir
proteção aos mais fracos e humildes. E o mago, em sua magnânima destreza
mental, sabia que havia ali, no pequeno vilarejo de Tomsmöl, uma pobre criatura
que sofrera indizíveis injustiças, e que certamente receberia com entusiasmo a
oportunidade de reparar e vingar os males que sobre sua vida haviam se
acometido. Tudo que ele precisava era de um pequeno empurrão e de uma ajuda
mágica, e era para isso que serviam magos paladinos como Galbeldore.
A entrada do vilarejo ficava logo após
um estreito córrego, sobre o qual se projetava uma pitoresca ponte de pedra.
Naqueles tempos, as estradas do reino, e particularmente as pontes, estavam
sempre muito bem vigiadas e aquela travessia não era exceção.
- Alto! Quem vem lá?! – Bradou a
sentinela da ponte, e sua voz soou mais como uma cordial saudação que como uma
interjeição inquisidora. Por algum motivo o tom do camponês armado irritou
profundamente o mago. Ele parou em frente ao guarda e seu cavalo se empinou
elegante num relinche.
- Por acaso não sabes quem sou? –
Perguntou Galbeldore, forçando simpatia na voz e disfarçando qualquer resquício
de petulância.
O camponês sorriu um sorriso
irritantemente cortês e não intimidado.
- Faço uma ideia – admitiu ele – mas é o
meu trabalho fazer perguntas. Vossa senhoria há de entender. Eu titubeei,
realmente, mas agora olhando melhor acho que já sei quem és. Uma mudança no
guarda roupas heh? Por isso me confundi! Mas me corrija então se meus olhos
tiverem se enganado e eu não estiver diante do grande Galbeldore, o Turvo.
O mago atravessou-o com os olhos e se
viu subitamente imerso em pensamentos distantes.
- Galbeldore, o Turvo... – repetiu o
ancião, perdido em suas sinapses.
- Não és tu? – Insistiu o sentinela,
ávido pela confirmação da presença heroica à sua frente.
- Era... – respondeu o mago,
contemplativo – há algum tempo atrás. Agora sou Galbeldore, o Claro.
O camponês fez uma falsa cara de
entendimento e, depois de um tempo, colocou de lado a lança e removeu o elmo de
ferro rudimentar.
- Bem, independente da tonalidade, é uma
honra vê-lo por essas paragens, senhor! Por favor, sê bem vindo!
O mago murmurou um agradecimento meio de
má vontade e, sem mais delongas, cruzou a ponte a meio trote. Não ia ficar ali
perdendo tempo com simpatias frívolas! Havia uma aventura à espreita e a
justiça clamava por sua ajuda.
O bucólico vilarejo não agrediu muito a
paisagem da estrada. Enquanto Galbeldore cruzava as vielas ainda podia
contemplar o horizonte verdejante, já que todas as casas eram baixas e cercadas
de hortas e jardins muitíssimo bem cuidados. Ao fim da aldeia, no entanto, a
planície era perturbada por uma série de colinas arredondadas. Numa daquelas
pequenas colinas, numa morada escavada na terra e na rocha, vivia uma pobre
alma injustiçada. Um Pequeno que tivera a vida retalhada por desgraças e vis
atrocidades e que agora juntava migalhas para reconstruir uma vida digna. O
mago só podia imaginar o estado de penúria no qual encontraria o sujeito.
Estaria abalado, decerto, e empobrecido, descostumado a lidar com os trabalhos
campesinos.
Caldor, era o nome do sujeito que
Galbeldore pretendia ajudar. Caldor, filho de Saldor, do clã Haroldo, de
Branquershirdn. Há pouco mais de uma década, às vésperas da Última Batalha,
muitos senhores feudais haviam jurado lealdade ao Imperador Thelmund, o
Pródigo. Mas apesar do monarca rebelde ter sido o maior nome da luta pela
liberdade em Kanthireia, alguns de seus vassalos estavam longe de seguirem seu exemplo
moral. Ora, pois não se engane: havia também tiranos a lutar contra o Lorde das
Trevas e o conde de Branquershirdn era um deles. À época em que o conde
prestara homenagem ao Imperador, os Haroldos eram a mais rica família de
Branquershirdn, mas seu suserano, ganancioso e receoso em dilapidar seu próprio
patrimônio a fim de arcar com as despesas militares que seriam necessárias para
combater a Treva, ordenou arbitrariamente que todos os bens dos Haroldos fossem
confiscados como tributos para custearem as belicosidades. O clã, que fizera
sua fortuna com o comércio, importando finas porcelanas e especiarias de
Myrinichi e vinho requintado de Dornaldor, resistiu ao decreto condal e reuniu
seus patrícios em rebelião. O resultado foi o total massacre e extinção dos
Haroldos, à exceção de seu filho caçula, Caldor, que fugira para o sul da
Arlísia com nada além da roupa do corpo e da amargura no coração.
Mas as marés haviam mudado em Kanthireia.
O Lorde das Trevas não era mais ameaça e a justiça real se instaurara em todos
os Três Reinos. Com isso, o conde de Branquershirdn acabou denunciado por seus
crimes e foi destituído de seus títulos. Agora, ele resistia à rainha Alorina com
um exército rebelde, apenas adiando o dia em que o herói certo consumaria sua
vingança e o levaria para enfrentar o tribunal.
- É dia de fazer nascer um herói! –
Pensou Galbeldore em voz alta, com o peito repentinamente se inflando de
excitação e ansiedade. Ele esperara muito tempo para voltar à ativa! Uma década
sem aventuras! Aquela era finalmente a oportunidade de ouro! Aliás, de ouro
não: era uma oportunidade de mithril!
Galbeldore subiu a colina à procura da
humilde morada onde deveria habitar o pobre Caldor, mas não viu nada que lhe
parecesse com a toca de um exilado sem posses. Ele então parou seu cavalo à
frente de uma casa encrustada numa encosta escarpada e o amarrou na elegante
cerca de madeira entalhada do jardim. O ancião cruzou o portãozinho de entrada
e bateu com o cajado na porta redonda de madeira esmaltada da casa. Enquanto
aguardava a resposta admirou a sebe, perfeita, que imaginou ser o trabalho de
um mui hábil – e bem pago – jardineiro.
A porta se abriu por fim, e o cheiro do
chá recém-servido, ainda fervente, invadiu suas narinas. Cheirava muito bem!
Chá que ele de imediato reconheceu ser de altíssima qualidade e bom gosto.
Um homem pequenino, descalço, com cascos
de cavalo no lugar dos pés apareceu diante de seus olhos quando a porta se
escancarou.
- Pois não? – cumprimentou ele, cortês.
O mago pigarreou.
-
Bom dia, meu caro senhor, estou a procura de Caldor Haroldo, de Branquershirdn.
Por acaso o senhor sabe me indicar o caminho até local onde ele costuma se
abrigar?
O Pequeno sorriu em divertimento.
- Ora, mas é claro! É aqui mesmo que ele
se abriga! – Respondeu alegremente.
- Oh! – Espantou-se Galbeldore – Que
gentileza a sua dar espaço em sua casa para os necessitados, eu o saúdo pela
generosidade! Será que eu poderia ter uma palavra com ele?
O homenzinho gargalhou e balançou a
cabeça para o sábio de barbas prateadas. Retirou um longo cachimbo do bolso e o
acendeu com desenvoltura.
- Não, não, meu caro senhor – disse ele,
fazendo uma pausa para soltar travessos anéis de fumaça pela boca –
Entendeste-me mal. Eu sou Caldor,
filho de Saldor, do clã Haroldo de Branquershirdn.
O mago ergueu as sobrancelhas,
primeiramente desconfiado de que fora vítima de uma piada, mas logo em seguida
convencido da veracidade do que dizia o sujeito.
- Oh! Que bom encontrá-lo, senhor
Caldor! Temos assuntos de seu interesse para tratar! Será que o seu anfitrião
se importaria de receber um velho viajante?
Caldor, filho de Saldor, balançou a
cabeça novamente, para desapontamento do mago.
- Oh! Seria um transtorno? – Perguntou o
mago, decepcionado.
- Não senhor! – Riu-se o Pequeno – É que
o senhor insiste que eu tenho mestres e anfitriões! Mas eu, Caldor, sou mestre
de minha própria casa, portanto meu próprio anfitrião, e seu também, decerto.
Então assim sendo, sou eu, e mais
ninguém, que digo que não será nenhum transtorno receber um visitante.
Em seus quatro milênios e três quintos
de vida, Galbeldore nunca estivera tão confuso quanto ali diante daquela
elegante casinha de campo. Perplexo, ele aceitou a hospitalidade e entrou,
baixando a cabeça e segurando o chapéu pontudo para passar por debaixo do arco
da porta. Sentando-se à mesa da cozinha, teve o chá servido pelo dono da casa.
O ambiente era perfumado por um misto de odores apetitosos: além do chá havia
hortelã, linguiça defumada, cravos, canela e mel. Tudo muito fresco. E muito
caro para um indigente.
- Vejo que... – titubeou o mago – as
coisas vão bem? Heh? – Havia uma certa decepção no tom de voz dele, que veio
impulsivamente e pela qual ele se sentiu extremamente culpado logo que parou
para refletir.
- Oh sim! Vão muito bem! – Disse o
Pequeno, alegremente – As coisas estavam realmente muito difíceis quando eu
cheguei. Sabe... danos colaterais da guerra. Muitas famílias perderam suas
posses. Mas Sua Majestade foi muito justa! Tão logo a paz foi estabelecida ela
ordenou que se criasse um fundo de amparo às famílias despossadas.
- E imagino que você tenha sido amparado
por tal benefício...
- Sim, sim! Eu me inscrevi no programa
depois de ficar um dia inteiro na fila – riu o homenzinho. Tudo agora parecia
uma piada divertida, aqueles transtornos da vida dos quais a gente ri no futuro
– depois de me registrar – prosseguiu ele – o magistrado veio pessoalmente
entrevistar os candidatos da aldeia e eu passei a receber uma pensão mensal,
que eu buscava no manso senhorial.
- Buscava? – Questionou o mago – Não
busca mais? Então essa qualidade de vida é provisória, imagino?
- Não, não – negou Caldor, com a mesma
desenvoltura e bom humor de quando abrira a porta e acendera seu cachimbo – eu
não preciso mais da pensão. Gastei o mínimo que eu podia e juntei o dinheiro
para investir. Sabe, sou de família comerciante. Comprei ovelhas e sementes. A
colheita foi ótima e artesãos se mudaram para o local na mesma época e
compraram minha lã a bom preço. Em alguns anos me vi capaz de construir uma
moradia mais digna. Em mais alguns minha despensa estava cheia das iguarias de que
eu tanto gosto de novo! Ah, a canela de Halgaldor! O vinho tinto de Dorlaldor!
A vida é boa novamente, enfim! Graças à Sua Majestade, a Rainha Alorina! Que os
Treze Deuses a abençoem por sua bondade!
- Deveras... – concordou o mago, ainda
com os pensamentos ligeiramente embaralhados.
O homenzinho dono da simpática casa
piscou os olhos ligeiramente, feliz e avaliador, enquanto observava o esguio
ancião em suas barbas e trajes reluzentes. A visão parecia divertida para o
mercador, mas o silêncio foi desconfortável para o mago. Felizmente o anfitrião
logo o quebrou, lembrando-o sobre o que dera início àquilo tudo.
- Então, do que se trata? – Perguntou
ele.
O mago relutou por um tempo, mas Caldor
logo esclareceu.
- Vossa senhoria disse que tinha um
assunto de meu interesse – completou ele – pois estou curioso, muito curioso!
- Bem. Para falar a verdade o senhor me
pegou um pouco de surpresa – admitiu o mago – eu imaginei que a minha ajuda
seria bem mais necessária. Mas isso não é problema, ora, de maneira alguma! É
muito bom ver que você está vivendo bem por aqui. Porém... – e ele reservou
algum suspense para o que estava por vir, fazendo uma pausa dramática e
diminuindo o tom da voz – imagino que o seu coração ainda esteja se sentindo
incompleto devido às injustiças que se acometeram sobre a sua Casa.
Caldor sorriu de forma cálida e seus
olhos compreensivos brilharam de uma forma diferente.
- Não.
O mago colocou ainda mais suspense na
voz e prosseguiu com a sua proposta.
- Mas é claro! Eu imaginei! E é por isso
que eu vim aqui, pois eu tenho como te mostrar um meio pelo qual tudo... espere... o que você disse?
Estariam seus ouvidos de ancião lhe
pregando uma peça?
- Não – declarou o Pequeno, feliz.
- Não? – Balbuciou o mago, como se nunca
tivesse ouvido a palavra antes.
- Não
– repetiu enfaticamente o anfitrião, com nítido divertimento na voz – Não me
sinto incompleto, nem com rancores. Eu comecei uma vida nova. Deixei para trás
o passado, a guerra, as injustiças. Nós vivemos numa outra época e tem tanto
para se aproveitar! Eu tenho o meu vinho, o meu chá, meu pão com azeite, meus
amigos na taberna. Não me falta nada.
- Mas... e os seu clã? – Insistiu
Galbeldore – E o conde de Branquershirdn? É disso que eu estou falando!
- Oh, sim! – Concluiu Caldor, em tom de
compreensão – Vingança.
- Justiça
– corrigiu o mago.
- A diferença entre vingança e justiça é
um carimbo, meu caro – disse o pequenino, em tom filosófico – E mesmo que ela
já não tivesse sido feita, eu não estaria disposto a arriscar a minha vida e
tudo que eu já consegui reconstruir para perseguir um fantasma do meu passado.
Mesmo
que ela já não tivesse sido feita? O
que ele queria dizer com aquilo?
Como que lendo os pensamentos do sábio
senhor, o homenzinho respondeu de antemão.
- Vossa senhoria não soube? O conde de
Branquershirdn foi capturado há duas luas. Um menestrel passou pela aldeia no
último Dia de Descanso e cantou uma balada sobre o caso. Parece que o exército
real o encurralou no abismo de Jilgurnord e ele baixou suas armas finalmente.
Ele foi arrastado até a Corte em Prismir e condenado ao exílio perpétuo.
- Oh... – a notícia pegara Galbeldore de
surpresa – que... bom?...
- Muito bom, não é mesmo? – Os anéis de
fumaça de Caldor pareciam dançar de alegria – Eu tenho a minha vida de volta e
não precisei de uma aventura para ver a justiça ser feita! Por isso eu digo
todos os dias, que os Treze Deuses salvem a Rainha!
O mago ergueu sua xícara de chá
solenemente como se fosse uma taça e concordou, com bem menos ânimo que o seu
anfitrião.
- À Rainha...
Vilarejo de Tomsmöl, Arlísia,
terceiro dia de feira, 28 de Brumário do 10º ano da Quinta Era. Final da tarde.
Encontrar hospedaria na aldeia não foi
difícil. Os camponeses eram receptivos e já não tinham mais desconfiança de
forasteiros. As estradas andavam calmas, os bandidos e salteadores ambulantes
haviam desaparecido por completo e ninguém mais tinha medo de nada. Galbeldore
se hospedou numa estalagem junto ao córrego, que tinha seu próprio moinho
d’água e fabricava seu próprio pão e cerveja.
Enquanto tirava a sela do cavalo e lhe
escovava os pelos nos estábulos da hospedaria, o mago repensou seus planos e
projetos para o ano. Estava certo de que iria conseguir uma aventura, mas tudo
fora por água abaixo graças às políticas sociais da rainha Alorina e à eficiência
do sistema jurídico do reino da Arlísia.
Quando tempo havia se passado desde que
ele treinara um herói? Anos? Décadas? Ele mal se lembrava... Seu último pupilo
morrera com honra na Última Batalha. Ele acendera pessoalmente sua pira e vira
as chamas lamberem e consumirem seu cadáver altivo, a espada e o escudo
repousando sobre o peito, elmo na cabeça, a cota de malha a reluzir avermelhada
em meio às chamas. Honra! Ah... o cheiro da Honra! O cheiro do sangue, do
estrume e da carne queimada de um campo de batalha... O que havia acontecido
com o mundo?
Cabisbaixo, Galbeldore adentrou na
taberna da estalagem. Afogaria as mágoas em hidromel e brindaria a tempos mais
gloriosos. No entanto, tão logo adentrou no recinto, deparou-se com mui improváveis
companhias.
- Gal! – Exclamou, ao fundo do salão, um
incrédulo homenzarrão de aspecto bruto e músculos que saltavam de sua couraça
de escamas.
- N-não creio! – O ancião boquiabriu-se metade
em êxtase por reencontrar antigos companheiros, metade em decepção por sentir
seus poderes de clarividência o traindo insistentemente naqueles últimos
tempos.
Pois eis que ali diante dele, como que
por obra do acaso, estavam três homens de Kanthireia que ele podia chamar de gloriosos.
Dois homens, na verdade... dois homens e um elfo.
Aquele que o chamara de maneira tão
informal era ninguém menos que Brefelgel, filho de Bralfrond, exímio guerreiro
do clã dos Maccal’hir, herdeiro de toda a Skenthirívia. Ao seu lado direito,
também sentado à mesa, estava um homem loiro, de traços ao mesmo tempo fortes e
suaves, trajado nas mais finas tecelagens de Rohrhall e adornado com uma placa
de peito de armadura reluzente, que era indubitavelmente um trabalho das
exímias forjas de Thurbhurnond. Seu nome era Althuris, filho de Altharis, da
Casa Dorvinguir, e ele era um paladino juramentado da Ordem de Therelgurin. Por
último, mais à esquerda da mesa, sentava-se o tipo mais exótico, porém não
menos extraordinário daquele grupo: um exuberante elfo de olhos envolventes,
tez profundamente morena e cabelos cor de areia, trajado com tons terrosos num
tecido místico que tinha a dureza e o aspecto do couro, mas a maleabilidade e
leveza da seda, inconfundivelmente um trabalho dos alfaiates de Bolgodor. O
elfo atendia pelo nome de Antivo, filho de ninguém, outrora líder dos temidos
bandidos de Salzgalhan, considerado, por unanimidade, o melhor ladrão de
Kanthireia, redimido à luz dos Treze Deuses, arrependido e perdoado de seus
crimes pelo próprio Imperador Thelmund. Todos eles eram veteranos e heróis da
Última Batalha.
- Meus amigos! – Exclamou o mago – Olhe
só para vocês! Dez anos! Vocês não envelheceram nada!
Brefelgel, filho de Braldrond gargalhou
estridentemente.
- E você tampouco rejuvenesceu! – Disse
ele, ao que o mago riu de volta.
- É bondade sua, meu caro Galb –
respondeu o paladino – você não faria comentário tão gentil se sentisse as
dores que me afligem as juntas!
O mago sorriu paternalmente para o
amigo, tocando-lhe o ombro, e então voltou seu olhar para Antivo, o elfo. Todos
ficaram em silêncio, como que esperando que o ladrão fosse agradecer ao elogio
do mago, ou fazer algum gracejo, talvez. Mas ele demorou para perceber que
haviam-lhe passado a deixa.
- Ah! – Exclamou ele então, ao perceber
os olhares mirados em sua direção – Eu sou imortal.
- Ah... é claro... – disse Galbeldore,
perfeitamente compreensivo.
- Por favor, sente-se conosco – convidou
Althuris – imagino que haja muito o que contar! Você anda sumido, vagando pelo
mundo, presumo. Defendendo os princípios da Ordem, sanando os males. Conte-nos
tudo que ordeno uma rodada de malte para amasiar as palavras!
O mago sentou-se, apoiando-se em seu
cajado, mas bufou em desânimo e embaraço. Não havia muito o que contar.
Praticamente nada, na verdade. Os últimos dez anos haviam sido de profunda
frustração e tédio. Um torpor havia tomado conta de toda a sua vida e de todo o
seu ser.
- Infelizmente eu careço de histórias –
declarou Galbeldore, entristecido. Ergueu então os olhos com coragem, pronto
para encarar a decepção nos olhos dos antigos companheiros de batalhas e
aventuras. Mas o olhar que ele recebeu não foi de desapontamento, mas sim de
mais profunda compreensão e empatia.
- Eu sei como você se sente, meu velho –
disse o Brefelgel, entornando de súbito um caneco inteiro de cerveja goela
abaixo – a vida não anda fácil para gente como nós – os filetes espumantes da
cerveja ainda escorriam por sua barba ruiva e grossa.
- Como assim, meus caros? Vocês
também...?
- Como é que eles chamam na República de
Valamaris? – Indagou Antivo – Desemprego?
Não é?
- Não há demanda para heróis desde a
Última Batalha... – concluiu Althuris, com a voz triste.
O mago balançou a cabeça, arrasado.
- Eu sinto muito...
Brefelgel rugiu e bateu com o caneco na
mesa.
- AAAAH! Não diga isso! Não precisamos
de compaixão! A gente dá um jeito, a gente se vira. Faz uns bicos aqui e ali.
Aprendi o ofício de ferreiro na última estação, para ocupar a mente. Até que
não é de todo ruim. É só você imaginar que o martelo é o seu machado e a
bigorna um crânio de ogro!
- Eu vinha me dedicando ao copismo nos
monastérios – contou Althuris – mas até isso vem sendo difícil... desde que os
monges começaram a importar aquelas máquinas desengonçadas de prensa de
Euliária ninguém mais anda disposto a gastar dinheiro com copistas. É um
absurdo! Você já pegou um livro impresso por acaso? É grotesco! Folhas de
papel... papel! Monocromáticos, sem
quaisquer tipos de iluminuras... é o fim da arte erudita!
- Eu entendo a sua dor, meu amigo –
disse o mago, ciente do transtorno causado pela imprensa. Ele mesmo costumava
se dedicar à iluminura e ao copismo e vinha tendo grande dificuldade para achar
livreiros que continuassem a contratar aquele tipo de serviço.
- Mas no final eu decidi que tanto
melhor! – Continuou Althuris – A pena sempre me foi uma distração mental para
mim, mas a espada, a espada sim é o meu ofício. Bem, eu ouvi rumores de que
ainda havia muitos orcs vagando pelo norte, então decidi retornar à minha terra
natal, Thargobar.
Brefelguel deu uma forte bufada de
desdém ao ouvi-lo dizer aquilo. Ele sabia o que viria a seguir, estava
informado sobre como andavam as coisas pelas bandas de Thargobar...
- Pois então, eu voltei para Thargobar –
continuou Althuris – acreditando prontamente que minha lâmina seria necessária
para defender o gentio da ameaça órquica. Mas... você não acreditaria! Eu não acreditaria se não tivesse
testemunhado! Quando cheguei a Thargobar os boatos se revelaram verdadeiros:
havia orcs por toda a parte! Mas eles não saqueavam, não queimavam celeiros,
nem estábulos, não profanavam santuários, não se alimentavam de carne humana...
Eu vi, Galb, com meus próprios olhos! Orcs arando a terra! Orcs vendendo carne
de porco no mercado! Orcs curtindo o couro! Orcs trabalhando o ferro! Ali, em
meio a todo mundo, em meio às pessoas...
Brefelguel cuspiu no chão e tragou do
seu caneco, como se afogar-se em cerveja fosse reverter aquela realidade.
Antivo manteve um olhar reprovadoramente distante, enquanto sua cabeça
balançava discretamente de um lado para o outro.
- Foi então que eu descobri o que se
passava – prosseguiu Althuris – Ao que parece, após a queda do Senhor do
Escuro, o rei Ellinor não viu mais sentido em perseguir os orcs. Os orcs não
tinham mais propósito sem o seu líder malévolo. Eles haviam se reduzido a
simples criaturas, neutras, sem qualquer super-mente soturna a incitá-los à
violência gratuita. Pois o rei, então, achou que seria injusto puni-los por
crimes que eles já não mais cometiam e convocou seus ministros a organizarem um
grande esforço e uma grande campanha de inclusão
dos orcs na sociedade! Criaram cotas de jornadas para orcs na colheita, leis
que proibiam os estalajadeiros de não aceitarem orcs em seus estabelecimentos e
até pagaram a bardos e menestréis para comporem canções exaltando a natureza
inofensiva dos orcs!
- Que grande tolice! – Balbuciou o mago,
perplexo.
- E querem fazer muito mais! – Continuou
Althuris – Há quem fale que o Parlamento de Thargobar vem pensando em ampliar o
programa de inclusão. Eles ampliam os direitos dos orcs a cada dia que passa.
Hoje em dia já se fala até em casamento
órquico! Você consegue conceber uma coisa dessas?
- É o fim! – Lamentou Brefelgel, os
bigodes brancos de espuma de cevada.
- Foi assim que eu desisti de me
reassentar em Thargobar. Não havia nenhuma possibilidade de ação por lá. Então
voltei para a Arlísia e o acaso colocou Brelf de novo no meu caminho e
resolvemos vir para cá guiados pelas boatarias, como sempre.
- Achávamos que íamos conseguir alguma
coisa por aqui – Brefelgel emendou, frustrado – Recebemos a notícia de que
havia oprimidos na região e...
- Espere! – Interrompeu o mago – Não me
diga que vocês vieram atrás de...
- Caldor Haroldo – disseram o mago, o
paladino e o guerreiro em uníssono.
- O pulha! – Bradou o mago, perdendo a
compostura – Que perda de tempo! – Ele então olhou para Antivo, que permanecera
quieto em seu canto – E você? Veio com eles atrás do Pequeno de vida resolvida
também, creio eu?
Antivo baixou a cabeça, constrangido.
- É melhor não tocar no assunto, Galb –
advertiu Althuris.
- Bobagem! O que pode haver de segredos
entre nós?! Nós degolamos juntos a Besta de Volgrár! Exorcizamos o Prelado de
Malzumir! Resgatamos Celzor Barba-Bífida dos piratas vermelhos! Lutamos juntos
contra Lorde Ulgamord! Precisamos continuar juntos e confiantes em tempos
difíceis como esses!
O guerreiro e o paladino se entreolharam
reflexivos, balançados pelo discurso de Galbeldore, e em seguida olharam
fixamente para Antivo. O elfo suspirou profundamente e cruzou os braços, dando
de ombros.
- Tudo bem, tudo bem! Mas nada de
julgamentos! – Declarou ele – Cogumelos de Malarina...
- De novo, Antivo?! – Ralhou o mago,
inconformado.
- Eu disse sem julgamentos! – irritou-se
o elfo, exasperando-se em seu assento.
- Desculpe – disse Galbeldore – Mas por
quê?
Antivo deu de ombros de novo.
- Eu estava entediado. Você tem que
entender... eu sei que é ilegal, eu sei que não faz bem pra cabeça... mas
conseguir cogumelos é difícil, é um desafio... e eu não sabia o que era isso
havia tempo e também estava ficando sem dinheiro...
- Ah não! – Exclamou o mago de novo –
Não era só pra você?! Você estava vendendo?!
Antivo ficou vermelho de raiva e cruzou
os braços ainda mais forte.
- Pronto! Não vou dizer mais nada! – Cuspiu o elfo.
O mago bufou e balançou a cabeça.
- Desculpe, desculpe – disse ele, não de
tão boa vontade assim – você sabe que eu sou sensível com essas coisas. Mas eu
me preocupo com você, com todos vocês. O que aconteceu? Você ainda continua?
- Não, ele parou – quem respondeu foi
Althuris, o paladino. Nós o encontramos aqui por acaso. O monastério das
redondezas serve como uma espécie de centro de reabilitação para cogumelistas e
eles também fazem trabalhos de caridade. Sabe, a política de cogumelos mudou
muito sob o reinado da rainha Alorina. Não se põe mais a ferros quem lida com
esse tipo de coisa.
- Não! – Continuou Brefelgel, com a sua
voz alta e rouca – Eles não põe a ferros, mas colocam você num monastério cheio
de freis e irmãs carolas, obrigam você a comer só porcaria, fazem você realizar
serviços comunitários e te lançam um feitiço rastreador para que você não vá
para muito longe da igreja!
Antivo estava mais vermelho que nunca,
mas agora de vergonha ao invés de raiva.
- E o que você está fazendo aqui fora? –
Indagou Galbeldore, como o faria um pai severo.
- Bom comportamento – respondeu Antivo,
com dez vezes mais constrangimento.
- É o que eu digo! – Exclamou Brefelgel,
dando um soco na mesa – Essa tal Era de Ouro amolece as pessoas!
- Amolece o visual também! – Comentou
Althuris, fitando o velho amigo mágico. Ele sempre fora tão atento às
indumentárias! – Foi o tédio que o fez renovar a aparência?
O mago baixou a cabeça em profundo
constrangimento, tal qual o fizera o amigo élfico, instantes antes. Todos eles
o olharam com preocupação. Brefelgel apressou-se para pousar a mãozorra sobre o
ombro do mago ao ver as lágrimas que começaram a escorrer-lhe
incontrolavelmente pelo rosto.
- O que houve amigão? – Perguntou o
guerreiro, com os olhos arregalados de preocupação – Esse paladino engomadinho
disse algo ofensivo? – Ele olhou raivoso para Althuris – Somos companheiros,
meu caro, mas eu juro por cada um dos Treze Deuses que se você ofendeu o velho
Gal eu esmago-lhe o crânio!
Galbeldore agitou as mãos e
desvencilhou-se do peso das patas de Brefelguel, que estavam a lhe arquear os
ombros de tão pesadas.
- Não, não! Não foi culpa dele – disse o
ancião – Sou eu. O problema é todo meu.
- Você pode desabafar, Galb – incentivou
Althuris.
O mago consentiu. Ele insistira para que
Antivo revelasse seus problemas, seria injusto se ele não o fizesse também.
- Estava insuportável – disse ele –
tudo. A vida, o torpor. Tudo! Quando você já tem bem mais de quatro mil e
quinhentos anos nas costas há poucas novidades que despertem interesse na vida.
A aventura, o heroísmo, essa vinha sendo a minha energia vital nos últimos
tempos. Combater Ulgamord! Uau! Foi épico, não foi? – Todos concordaram
sonoramente, o guerreiro erguendo o caneco, já cheio novamente – Mas quando
tudo acabou e veio a Paz Real tudo ficou muito diferente e muito mais
complicado. Eu pensei em encontrar meios alternativos para depositar o meu
talento. Você, meu caro Althuris conhece bem a decepção que vem se tornando o
mercado de iluminuras e livros – Althuris baixou a cabeça, tristonho – então
decidi me dedicar às artes herbóreas, ajudar a curar as moléstias das pessoas –
mais lágrimas vieram aos olhos do ancião – mas vocês sabem o que andam dizendo
dessas artes milenares hoje em dia?
- Panaceia! – Bradou Brefelguel – Mandinga,
simpatia... é como chamam hoje em dia...
O mago enxugou as lágrimas e engoliu um
soluço. Aquelas palavras doíam de forma cortante e seca.
- Sim. Desde que os irmãos Jolken
inventaram a penicilina ninguém mais quer saber das ervas.
- Inventaram a o quê? – Perguntou Althruis, exasperado.
- P-penicilina – disse o mago, com a voz
fraca.
- Pelos deuses, Galb! – Althuris pareceu
ultrajado – Você nunca foi de falar baixarias!
- Não é baixaria – continuou o mago, sua
voz foi ficando tão seca quanto lhe soavam aquelas palavras novas – é... é... –
ele retorceu a cara, num misto impotente de repulsa e perplexidade – é... Ciência.
Os outros bufaram e fizeram gestos de
desdém.
- Você passa milênios estudando artes
ainda mais antigas que você – continuou o mago – para que então um dia, do
nada, um grupinho de estudantes universitários metidos a donos da verdade digam
que tudo que você faz não passa de delírios supersticiosos e obscurantistas!
Houve um dia em que as ideias deles
eram puníveis com a morte! Vocês se lembram?
Nenhum deles pareceu entender sobre o
que Galbeldore estava falando, à exceção de Antivo, que levantou a mão.
- Eu me lembro – disse o elfo.
- E eu estou ameaçando jogar esses
estudantes numa fogueira? – Perguntou o mago, com o rosto vermelho e os olhos
inchados – estou? Estou militando para persegui-los? Não! Eu lutei para que as
Universidades onde eles estudam fossem criadas! Eles podiam retribuir com um
mínimo de respeito! Ou pelo menos podiam tentar não destruir a minha carreira!
- Não posso dizer que entendo, Gal –
disse Brefelguel – mas tudo isso me soa academicamente frustrante.
- Isso não é o pior... – o semblante do
mago ficou bastante sombrio, enquanto ele voltava a se encolher.
- Tem pior? – Espantou-se Althuris.
Galbeldore respirou fundo e continuou
seu relato.
- Depois que todas as alternativas deram
errado eu cheguei à conclusão de que a minha existência não fazia mais sentido
para o mundo.
Brefelguel deu um soco tão forte na mesa
que todas as pessoas na taberna olharam amedrontadas na direção deles.
- NUNCA MAIS! Nunca mais diga uma coisa
dessas!
- Deixe ele continuar, Brelf! – Althuris
parecia igualmente indignado, mas achava impolido interromper um ancião.
- Enfim, eu cheguei a essa conclusão –
fungou o mago – e resolvi que visitar o Outro Lado seria a única aventura que
me restava. Eu preparei o laço, mas sabia que não seria o suficiente. Eu tenho
poderes mágicos muito fortes, que em situações de perigo acabam agindo por si
só. Mas eu sei como controlar e contornar esse tipo de coisa. Então eu coloquei
um encantamento na corda, amarrei-a à trave do telhado, disse mais algumas
palavras cabalísticas para garantir que os meus instintos mágicos não seriam
fortes o suficiente e me engravatei. “Adeus, mundo cruel” foram minhas últimas
palavras, para vocês terem noção do quão exausta estava a minha mente. “Adeus, mundo cruel!” Aquelas palavras
ricochetearam no meu crânio e eu já sentia um profundo arrependimento do cliché antes mesmo dos meus pés sentirem
a ausência de chão sob o banquinho.
- Eu posso entender isso – declarou
Antivo – você voltou atrás por achar que a ocasião não havia tido estilo o
suficiente. Admirável.
- Não... – o mago parecia envergonhado –
Não desisti, apesar da agonia e da falta de originalidade. Suicidei-me. E fui
um suicida muito bem sucedido.
Todos olharam com perplexidade. Bem
sucedido?
- Está nos dizendo que você é o fantasma do Galbeldore? – Indagou
Brefelguel.
- Não – respondeu o ancião, sombrio – Eu
morri. Morri no dia 30 de Ulgosto do ano 9 da Quinta Era. Morri... – as
lágrimas escorriam-lhe pelo rosto novamente. Ele cobriu a face com as duas mãos
– mas apenas para ressuscitar sete dias mais tarde, com as roupas mais claras e
dez vezes mais poderoso! Sou indestrutível agora... indestrutível... –
choramingou ele.
Brefelguel pousou suas pesadas mãos
sobre os ombros do mago novamente, dando-lhe tapinhas de consolo nas costas.
Mas Galbeldore recompôs sua dignidade
rapidamente. Resgatou o orgulho do fundo do peito e ergueu-se. Aqueles eram
amigos íntimos e queridos, mas não estava disposto a demonstrar mais fraqueza
nem diante deles. Ergueu a cabeça e os olhos, que pareceram magicamente secos e
declarou em tom perfeitamente normal:
- Chega de falar dos desinteresses da
minha vida recente. Preciso saber de vocês, de nós! Quais os planos? E já que estamos aqui, precisamos pensar em
algo que sirva de ajuda mútua. Um esforço de cooperação, para sobreviver a
esses dias de prosperidade! O que me dizem?
Todos concordaram e pediram uma rodada
de hidromel para comemorar a reunião, apesar dos revezes cada vez maiores que
cada um ia trazendo para a roda de conversa.
Nos momentos seguintes decidiram pôr de
lado a melancolia e falaram sobre os tempos de turbulência. O dragão de Kraaj,
as Oito Maldições de Thümgold, os assassinos de Wuldrurmond. E falaram de como
haviam superado e saído vitoriosos de todos aqueles desafios. Falaram da vez em
que Antivo se passara pelo duque de Jilkon e conseguira passar oito noites
inteiras desfrutando do novo harém do tirano. Falaram da vez em que Brefelguel
derrotara, sozinho, duas centúrias da poderosa Legião de Ungoldórk. Relembraram
de como Althuris convencera o malévolo Sultão Malparful a renunciar e se
retirar para um monastério, arrependido de seus crimes, após ser derrotado por
ele num duelo. E o mago se deleitara na lembrança de como conseguira fazer a
luz de seu cajado iluminar completamente as Grandes Galerias das Minas de Tûg,
fazendo com que os salões das profundezas da terra parecessem campos banhados
pelo sol do meio dia.
Foi em meio à essas boas histórias que
os velhos amigos começaram a perceber uma outra conversa que se passava logo
ali na mesa ao lado. Um grupo de jovens camponeses havia tomado a mesa vaga que
ficava entre eles e o balcão e, aos poucos, eles foram pescando,
involuntariamente, algumas palavras chaves.
Matou
Bandido
O
Tirano
Grande
batalha
- Do que eles estão falando? – Indagou
Antivo, ao notar que os demais também estavam travando ao ouvir aquelas
expressões.
- Só podem ser recordações também! –
Deduziu Brefelguel.
- Ouçamos por um instante – sugeriu
Galbeldore. E foi o que fizeram. Concentraram-se, cada um deles, em suas
bebidas por alguns minutos enquanto tentavam pescar a conversa da mesa ao lado.
-... uma grande explosão de fogo! –
Disse um dos camponeses – Era um dragão, eu tenho certeza!
- Não seja idiota – disse outro plebeu –
dragões têm asas! Era um grifo!
- Grifos também têm asas, seu imbecil – resmungou um terceiro.
- Não importa o que era, o que importa
era que estava sob o controle do bruxo maligno, que é um lacaio do Tirano das
Sombras, e ele torrava os guerreiros da vila e os devorava diante da população
que não podia fazer nada!
Althuris não conseguiu conter sua
curiosidade e deixou de lado sua conduta de polidez. Num salto ele ergueu-se de
sua cadeira e dirigiu sua voz retumbante e altiva aos camponeses da mesa ao
lado.
- Digam-me onde que essas coisas
aconteceram, plebeus! – Ordenou ele.
Os três simples colegas olharam
admirados a postura do paladino e pareceram deslumbrados com sua indumentária.
Enquanto que dois deles apenas balbuciaram, atônitos por um nobre cavaleiro
daquele porte estar lhes dirigindo a palavra, o terceiro, mais sóbrio,
respondeu.
- Em Halmorthon, a apenas duas léguas ao
sul daqui. Ainda deve estar acontecendo, acabamos de vir de lá...
- Finalmente! – Comemorou Althuris –
Companheiros – disse ele, voltando-se para os camaradas – É chegada a nossa
hora! E não veio cedo demais!
Brefelguel ergueu-se num retumbante
“AAAAARGH!” e pôs o machado às costas. Leve como pergaminho de Linnesmuri e
mais rápido que o vento, Antivo já se encontrava ao batente da porta da
estalagem, com arco e aljava também em riste. Em questão de minutos, o mago e o
paladino resgatavam seus cavalos do estábulo e trotavam junto aos companheiros
em direção ao sul. Antivo saltava pelas copas das árvores e seguia como uma ave
rasante pelos campos abertos, enquanto que Brefelguel acompanhava a pé o passo
dos cavalos, reclamando a todo o tempo da lentidão de todos.
O cair da noite não lhes foi empecilho,
pois tinham as energias renovadas pela emoção. O sol nascia quando surgiu ao
horizonte a silhueta da vila de Halmorthon.
Vila
Halmorthon, Arlísia, quarto dia de feira, 29 de Brumário do 10º ano da Quinta
Era. Alvorada.
A heroica comitiva estranhou ao
contemplar a silhueta de Halmorthon ao longe, aparentemente tão calma, tão
pacífica. Se um dragão estava espreitando pelas ruas da cidadela haveria de se
poder observar de longe a fumaça negra e roxa de suas baforadas, mas daquela
distância absolutamente nada parecia indicar perigo ou calamidade.
A sensação de estranheza e de
desapontamento foi crescendo conforme foram se aproximando da vila. Ao chegarem
à porta que dava acesso ao povoado através da cerca viva, a sentinela,
simpática e receptiva, saudou-os com a clássica indagação:
- Alto, quem vem lá?
O mago aproximou-se, com o cajado em
mãos e a sobrancelha erguida de desconfiança. Teria o suposto bruxo lançado um
feitiço hipnotizante sobre a população?
- Como te chamas, soldado? – Requereu o
mago.
- Ora! Sou eu quem deve fazer as
perguntas! Mas fico tão honrado pelo interesse de vossa senhoria em meu humilde
nome que até me acanho. Sou Brant, filho de Bralg. É sempre um prazer ter gente
tão bem nascida e elegante às portas da nossa vila! Acho que não tem problema
se passarem, sejam muito bem vindos, cavalheiros! Vossas senhorias chegaram em
muito boa hora!
- É mesmo? – Surpreendeu-se Althuris – E
porque dizes isso, plebeu?
O guarda sorriu de maneira zombeteira.
- Ora, entrem e descubram! Garanto que
não vão se desapontar.
Uma
armadilha! Pensou Galbeldore. Que emocionante! Fazia tanto tempo que não
caia numa cilada! O gentio estava realmente enfeitiçado pelo rival mágico!
Satisfeitos por terem uma tocaia armada
para eles logo à frente, os amigos atravessaram o portão da sebe e penetraram
na pequena cidadela.
- Quem quer que seja este bruxo deve ser
muito poderoso – alertou Galbeldore – veja essas pessoas, agem como se nada
tivesse acontecido.
De fato, nada na rotina da vila parecia
indicar qualquer tipo de perturbação. Os comerciantes esgoelavam-se para
anunciar seus produtos na feira, as crianças corriam de forma travessa pelas
ruas, guardas reais patrulhavam as esquinas e carroças de grãos, farinha e feno
circulavam normalmente em direção ao celeiro e ao moinho.
A tensão foi aumentando conforme eles
foram se aproximando da praça central do povoado. O clima de normalidade era
opressivo. Eles podiam sentir que a estranha normalidade não podia ser obra de
ninguém senão um dos mais poderosos bruxos das trevas dos últimos séculos. Quem
no mundo teria a capacidade de submeter as mentes de toda uma comunidade aos
seus desígnios a fim de armar a cilada perfeita para uma comitiva de heróis?
Foi quando estavam prestes a dobrar a
esquina que lhes colocariam dentro da praça que ouviram a explosão. Um estalido
agudo que ecoou pelas ruas e fez um burburinho de gritos abafados e vozes de
espanto emergirem da praça.
- É o dragão! – Disse Brefelguel,
empunhando o machado.
- Pelo som, parece mais um diabrete de
Rümn – palpitou Antivo.
- Isso não é dragão nem diabrete algum –
declarou o mago, categórico em sua sapiência, e com a frustração voltando a
inundar-lhe o olhar.
Dobraram por fim a esquina para
contemplarem uma praça central repleta de gente. As pessoas da vila se
amontoavam em torno de um grande palco de lona e madeira armado próximo à
igreja. Sobre o palco, uma serpente multicolorida de pano e lantejoulas dançava
de um lado para o outro, cuspindo fogo em direção à lona e à plateia, sem
causar qualquer tipo de queimaduras. As crianças próximas ao palco gritavam de
horror quando o fogo as envolvia, para depois rirem e gargalharem
exaustivamente quando ele desaparecia, revelando-as perfeitamente sãs.
- Pirotecnistas? – A pergunta de
Althuris era ao mesmo tempo uma exclamação indignada.
- Atores...
– complementou Galbeldore.
- Uma trupe de teatro. Era disso que os
camponeses estavam falando o tempo todo! – Resmungou Brefelguel, cuspindo no
chão de paralelepípedos eximiamente bem encaixados e limpos.
De repente, uma luz acendeu-se nos olhos
do velho mago.
Teatro, pensou ele, achando-se um completo idiota por não
ter pensado naquilo antes.
E pela primeira em dez anos, Galbeldore,
o Claro, pôde sentir novamente o cheiro da glória.
Posfácio
E aqui termina a abertura das memórias
dramatizadas pós-Idade-das-Trevas de Galbeldore, o Claro. O que acontece depois
é de conhecimento geral de todos com um mínimo de cultura. A companhia de
teatro dos Feikírias, fundada naquele dia pelo mago, tornar-se-ia uma lenda em
meio à população. Por séculos falariam sobre seu legado cultural, suas inúmeras
peças e musicais, suas performances espetaculares, repletas de magia e de
encenações realistas de lutas e duelos de tirar o fôlego. Dragões cenográficos
realistas mortos por heróis e guerreiros de verdade diante de plateias
embasbacadas, reconstituições das grandes sagas e aventuras da Idade das
Trevas, e inúmeros outros espetáculos.
A companhia cresceria até se tornar uma
escola de artes e teatro, e mais tarde uma universidade inteira dedicada a
esses ofícios. Na única entrevista que, por fim, Ilguri Aliguieris conseguira
com o Mago Claro, ele perguntou ao ancião sobre qual era para ele o sentido de
sua companhia teatral, ao que o mago respondeu introspectivo:
- O teatro é a minha realidade, em meio
à ficção da vida.
Enelidir de Algamanthis, Lorde de Ulgamória
Prismir, quatro de flareiro de 317 da Quinta Era.
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