quinta-feira, 25 de julho de 2013

Domingo de Maio



Segundo domingo de maio. Dia das mães. É preciso ir ao mercado, abastecer para o almoço. Ando pelas ruas ainda sonolentas do meu bairro. Meu filho me acompanha, com a curiosidade peculiar dos que tem a sua idade. Quer saber onde estão os carros, as pessoas, os ônibus, tão presentes durante a semana. Explico a excepcionalidade da ocasião e ele entende ou finge entender. Entretanto, nós dois nos surpreendemos quando chegamos ao nosso destino: os corredores estreitos do mercado lembram um formigueiro humano, com seu vai-e-vem de gente e carrinhos de compra. Dois pensamentos me alcançam, quase que ao mesmo tempo: 1) aquele é o último lugar do mundo em que eu gostaria de entrar; e 2) da próxima vez, devo sair de casa ainda mais cedo. Sem alternativa, acabamos nos juntando à multidão, no afã de comprar os mantimentos.
Como sempre acontece nessas ocasiões, nossa cesta vai miraculosamente se enchendo de doces e balas, que tento inutilmente descartar pelas prateleiras à medida que avançamos. A conferência da lista de compras é o momento crucial da empreitada, pois dela depende a tranquilidade do restante da manhã. Checo uma, duas vezes. Preciso me certificar de que está tudo ali. Folhas e legumes para a salada; os ingredientes do prato principal: espaguete e creme de leite; sorvete para a sobremesa. Confere. Resta enfrentar a fila do caixa. Muita paciência deve ter o cidadão nessa hora. Escolho a fila que me parece mais promissora.
Chega a nossa vez. A mocinha quer saber se possuímos o cartão do lugar, a fim de nos credenciar para as promoções. Digo que sim. Aguardo que ela registre todos os volumes e entrego o cartão.
– Ih, tinha que ter me dado antes, agora não tenho mais como fazer o desconto.
Cria-se um impasse. Os outros fregueses se impacientam. Todos parecem nos olhar com ares de reprovação. Quero ir embora, mesmo sem o merecido desconto. De repente, um sorriso.
– Vamos registrar tudo de novo, agora passando o cartão primeiro.
Ela chama a supervisora e pede autorização para zerar a registradora. Reinicia o trabalho. No final, empacota tudo e me deseja um bom domingo. É tudo o que anseio, e devolvo o cumprimento. Pensativo, tomo o caminho de volta segurando meu filho pela mão. Tento lembrar a partir de quando o que deveria ser considerado normal e correto passou a nos parecer extraordinário. Não consigo.
Ser cordial não é pecado nem vergonha. A cordialidade de uma desconhecida, forçada a se ausentar de casa naquele domingo tão especial, infelizmente soa agora mais como utopia do que como realidade.
Consegue ser cordial quem é feliz. O assunto remete à historia do francês que, após defender uma tese de doutorado, desistiu da vida acadêmica para viver num monastério budista. Até aí, nada de mais. O que surpreende é que ele foi considerado o homem mais feliz do mundo, conclusão a que chegaram os cientistas da Universidade de Wisconsin depois de medirem a atividade do seu córtex pré-frontal esquerdo, área do cérebro relacionada à felicidade. Prova irrefutável de que não é preciso possuir mais do que o necessário para se viver em harmonia. Ao contrário, parece que o supérfluo e o dispensável acabam se tornando insustentáveis, levando a um estado crescente de ansiedade ao longo dos anos.
            Retorno ao lar envolto por esses pensamentos, mas com a agradável sensação do dever cumprido. Pena que ela só dure até descobrir que a massa correta para a macarronada era o talharim.

Oswaldo Vilella

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