Segundo domingo
de maio. Dia das mães. É preciso ir ao mercado, abastecer para o almoço. Ando
pelas ruas ainda sonolentas do meu bairro. Meu filho me acompanha, com a
curiosidade peculiar dos que tem a sua idade. Quer saber onde estão os carros,
as pessoas, os ônibus, tão presentes durante a semana. Explico a
excepcionalidade da ocasião e ele entende ou finge entender. Entretanto, nós
dois nos surpreendemos quando chegamos ao nosso destino: os corredores
estreitos do mercado lembram um formigueiro humano, com seu vai-e-vem de gente
e carrinhos de compra. Dois pensamentos me alcançam, quase que ao mesmo tempo:
1) aquele é o último lugar do mundo em que eu gostaria de entrar; e 2) da
próxima vez, devo sair de casa ainda mais cedo. Sem alternativa, acabamos nos
juntando à multidão, no afã de comprar os mantimentos.
Como sempre
acontece nessas ocasiões, nossa cesta vai miraculosamente se enchendo de doces
e balas, que tento inutilmente descartar pelas prateleiras à medida que avançamos.
A conferência da lista de compras é o momento crucial da empreitada, pois dela
depende a tranquilidade do restante da manhã. Checo uma, duas vezes. Preciso me
certificar de que está tudo ali. Folhas e legumes para a salada; os
ingredientes do prato principal: espaguete e creme de leite; sorvete para a
sobremesa. Confere. Resta enfrentar a fila do caixa. Muita paciência deve ter o
cidadão nessa hora. Escolho a fila que me parece mais promissora.
Chega a nossa
vez. A mocinha quer saber se possuímos o cartão do lugar, a fim de nos
credenciar para as promoções. Digo que sim. Aguardo que ela registre todos os
volumes e entrego o cartão.
– Ih, tinha que
ter me dado antes, agora não tenho mais como fazer o desconto.
Cria-se um
impasse. Os outros fregueses se impacientam. Todos parecem nos olhar com ares
de reprovação. Quero ir embora, mesmo sem o merecido desconto. De repente, um
sorriso.
– Vamos
registrar tudo de novo, agora passando o cartão primeiro.
Ela chama a
supervisora e pede autorização para zerar a registradora. Reinicia o trabalho.
No final, empacota tudo e me deseja um bom domingo. É tudo o que anseio, e
devolvo o cumprimento. Pensativo, tomo o caminho de volta segurando meu filho
pela mão. Tento lembrar a partir de quando o que deveria ser considerado normal
e correto passou a nos parecer extraordinário. Não consigo.
Ser cordial não
é pecado nem vergonha. A cordialidade de uma desconhecida, forçada a se ausentar
de casa naquele domingo tão especial, infelizmente soa agora mais como utopia
do que como realidade.
Consegue ser
cordial quem é feliz. O assunto remete à historia do francês que, após defender
uma tese de doutorado, desistiu da vida acadêmica para viver num monastério
budista. Até aí, nada de mais. O que surpreende é que ele foi considerado o
homem mais feliz do mundo, conclusão a que chegaram os cientistas da
Universidade de Wisconsin depois de medirem a atividade do seu córtex
pré-frontal esquerdo, área do cérebro relacionada à felicidade. Prova
irrefutável de que não é preciso possuir mais do que o necessário para se viver
em harmonia. Ao contrário, parece que o supérfluo e o dispensável acabam se
tornando insustentáveis, levando a um estado crescente de ansiedade ao longo
dos anos.
Retorno ao lar envolto por esses pensamentos, mas com a
agradável sensação do dever cumprido. Pena que ela só dure até descobrir que a
massa correta para a macarronada era o talharim.
Oswaldo Vilella
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