terça-feira, 25 de junho de 2013

Tambores

A princípio, ele havia pensado que aquele despertar não passava de mais uma de suas dores de cabeça habituais. Ele demorou para perceber que os tambores em sua cabeça eram reais. Bem reais.
- Acorde, acorde! - Dizia-lhe a voz distante de sua esposa, cutucando-o desconfortavelmente no leito quente e aconchegante. Ele não queria acordar. Era fim de semana. Mas por que ela insistia tanto? E por que sua voz estava tão amedrontada? - Amor, acorde, por favor, não está ouvindo?
“Ouvindo?” foi a resposta, mas foi uma resposta mais para si mesmo. Para a mulher soou algo como um resmungo.
“Ouvindo?” Ora. Sim, ele estava ouvindo. Não era um sonho então? Um de seus pesadelos?


BUM! BUM! BUM! TARAN TAN TAN TAN TAN!


Ele arregalou os olhos de repente e sentou-se de sobressalto. Esfregou os olhos com força. Sim, estava ouvindo.
- É no rádio? - Perguntou ele, pateticamente, sabendo o quão estúpida era a sua pergunta.
- Não! - Respondeu a esposa, relutante - É na rua! - a segunda parte soou um pouco mais esganiçada. Ela mesma percebeu e tapou a boca com uma das mãos quando ouviu sua voz trêmula.
Um vento gélido e inexistente cruzou o quarto, levando todo o aconchego da cama com ele. Não era apenas o som dos tambores, mas também o de gente. Passos em perfeita sincronia de botas marchando, gritos de ensandecido torpor. Oh! Ele nem abrira as janelas, mas já podia ver as bandeiras tremulando, os estandartes desfilando pela avenida, as saudações bem ensaiadas!
- Onde estão as crianças? - perguntou ele, com a voz distante, mas ao mesmo tempo com um vazio repleto de angústia e preocupação.
- Ainda estão na cama...
A esposa mal  havia  terminado  de  falar  quando  ele se levantou e

correu de um só salto até a porta do quarto de seu pequenino casal de gêmeos.
            O pai escancarou a porta e parou abruptamente ao contemplar a paz do sono pesado das crianças. Um soluço escapou por sua garganta e ele se viu levando a mão à boca como fizera a esposa havia pouco.
As mãos geladas da mulher puxaram-no de volta daquele momento de contemplação ao se encontrar com as suas. Ela primeiro encostou o ombro em seu braço, depois aproximou-se mais e colocou a cabeça contra o seu peito, o olhar também fixo nas crianças adormecidas e abençoadamente ignorantes. Ele a abraçou, abraçou forte, como se tentasse passar para ela a calma e a coragem que não possuía. Eles ficaram ali parados no batente da porta do quarto por um bom tempo, o mais completo e absoluto silêncio entre eles, enquanto que ao fundo as paredes da casa tremiam.


BUM! BUM! BUM! TARAN TAN TAN TAN TAN!


- Eu nunca imaginei que eles chegariam até aqui - disse a esposa, por fim.
            Uma eternidade de silêncio em meio ao barulho retumbante se fez até a resposta do marido.
- Eles sempre chegam.

sexta-feira, 21 de junho de 2013

Uma vida seca


                                                    Uma vida seca

Nestes últimos dias, a mídia tem dado destaque à vida e obra de Graciliano Ramos por causa da proximidade da Flip onde  será o homenageado deste ano.

No sábado, o caderno Prosa do Globo foi dedicado exclusivamente a Ramos, fazendo uma linha do tempo da sua vida e obra. O que mais chamou a minha atenção foi o artigo do José Castello onde ele questiona o porquê da vida de Fabiano ser tão seca. O jornalista coloca um ponto que achei muito interessante “Fabiano tinha uma vida seca, não apenas pela miséria e fome que vivenciava no sertão de Alagoas, mas também pela pobreza da linguagem que ele usava para se expressar”, concluindo que a vida era muito seca porque era muito silenciosa. Era o silêncio, a falta de linguagem que talvez doesse mais em Fabiano do que a fome. A falta de conhecimento da linguagem fazia dele um ser muito mais próximo de sua cadela Baleia e muito distante dos outros homens que cruzavam o seu caminho.

O ser humano é o único ser vivo que tem a capacidade de se expressar através da linguagem.  Ela reflete a cultura, as ideias, as crenças de um povo e de seus indivíduos. Questiono se: Fabiano falasse um pouco melhor e conseguisse transmitir seus desejos, sua vida teria sido assim tão seca?

A linguagem define o homem que a usa. Nem todos usam a linguagem de forma idêntica – uns são mais casuais, outros mais formais, e há ainda os intermediários. A forma como você fala diz muito sobre você! A escolha dos vocábulos para expressar a ideia que quero passar ao outro revela muito de mim. As palavras têm sonoridade e intensidade, a forma como  as pronuncio define a conotação mais positiva ou negativa da ideia que transmito ao meu semelhante.

Ao terminar o artigo do jornal, parei e refleti alguns minutos. E descobri como a minha vida é rica.  Como gosto de poder usar a linguagem com desenvoltura e com prazer. Adoro ouvir e contar histórias.  Neste momento, olhei à minha volta e vi meu sogro contando para minha filha como havia sido a infância dele, auxiliando o pai que era alfaiate lá no interior da Bahia.  Como seria se ele não soubesse falar com clareza?  Esta experiência de vida teria se perdido.

Peguei minha taça de vinho tinto, fazia frio lá no sitio, mas senti uma onda de calor e prazer – certo “bonheur”- por ter este privilégio de falar, ouvir e compreender histórias faladas e escritas. Poder desfrutar das sutilezas que a literatura nos oferece com seu mágico mundo da ficção e tudo o mais me pareceu tão distante e pequeno.  As tarefas  do cotidiano ficaram em outro plano. O vinho não era nada de especial, mas aquele momento foi único, as ideias do Castello adicionadas às histórias da família me proporcionaram uma tarde muito leve e feliz.

Só fiquei com uma dúvida, - já que Ramos era bastante engajado politicamente, esta colocação do Castello foi intenção do autor – apresentar nas entrelinhas uma critica social ao analfabetismo sendo uma das causas da vida seca do nosso personagem Fabiano?

 

 Bebel Pozzi

Junho 2013

Maria conheceu Antonio por acaso....


Maria conheceu Antonio por acaso. Não estava nos seus planos sair de casa naquele dia porque chovia muito e ela nunca gostou de andar na chuva nem quando era pequena. Mas faltou manteiga para fazer o bolo do lanche das crianças, eles adoravam comer bolo ao chegarem cansados e suados da escola. Era um momento feliz, a hora do lanche: bolo quente e Nescau gelado. Pedro e João viam no ônibus da escola sonhando com o lanche que Maria preparava todas as tardes de quinta-feira, quando ela vinha fazer a faxina na casa dos meninos. Fora babá deles quando pequenos, eles cresceram e agora Maria tornara-se apenas a faxineira, foi assim que a patroa decidiu já que Maria era de confiança e servira a casa durante tantos anos. Os garotos estavam terminando o ensino médio.

Maria se preocupava com o futuro, se eles entrassem para a universidade, será que iam ter folga as quintas à tarde para lancharem juntos e contarem as novidades da semana? Maria amava aqueles meninos como se fossem seus filhos. Eles sempre foram muito carinhosos com ela. Iria sentir falta deste encontro semanal, ela mais que eles com certeza. Os meninos iam aprender coisas novas na universidade e ela continuaria com sua vida neutra, sem grandes emoções. O sinal abriu, Maria se preparou para atravessar a rua, olhou para os 2 lados e foi. Misteriosamente um carro surgiu e atropelou Maria. Por sorte, ele fora atencioso, parara o carro na calçada e saíra para ajudá-la a se levantar do chão, vestido rasgado, descalça, perdera os chinelos na queda. Ele se chamava Antonio, era motorista particular, como estava atrasado, avançara o sinal da rua transversal. Mil desculpas, senhora! Vou levá-la em casa! E levou de carro, deu a volta no quarteirão e deixou Maria na portaria. Pediu desculpas novamente e seguiu seu destino: buscar o patrão no aeroporto Santos Dumont.

O lanche  daquela tarde não teve bolo, os meninos ficaram frustrados, mas compreenderam. Maria estava com os joelhos e cotovelos ralados, mas nada de mais sério ocorrera, felizmente. O Nescau gelado fora complementado por bolinhos de chuva que ela preparou rapidamente, devido a sua facilidade na cozinha. Saiu mais cedo naquele dia, pois queria ir sentada no ônibus para Cascadura, onde morava. Os meninos cobraram um bolo especial para próxima quinta, com calda de chocolate. Ela prometeu cumprir a promessa. Chegou  em  casa cansada e triste, estava com o corpo bem dolorido.

 A semana se passou sem conflitos, Maria estava de novo na faxina, arrumando os armários dos meninos e quando se lembrou da promessa do bolo com a calda. Desceu para ir à padaria e quando passou na portaria; teve uma surpresa - um recado para ela. Maria recebera uma rosa vermelha com um cartão que dizia: Posso lhe levar em casa hoje? Antonio.

Ela saiu com a flor numa mão e o dinheiro para as compras na outra, com seus novos chinelos que a patroa havia comprado. Não estava chovendo, ela olhou para a esquina com cuidado e atravessou. Ao sair do mercado, Antonio estava lá esperando por ela. Perguntou de novo: Posso te levar em casa? Ela corou de vergonha com aquele clima de paquera no ar. Mas aceitou - Saio às 17h. Ele disse que estaria na esquina esperando.

Os meninos entraram para a universidade e raramente estavam em casa nos dias da faxina, mas  Maria tinha outra preocupação na mente. A carona de Antonio, ele esperava na esquina pontualmente às 17 horas, todas as quintas-feiras e planejava pedir-lhe em casamento no Natal.

  

Bebel Pozzi

Junho/2013

Férias em Santorini


                                                     As férias em Santorini

 

 Ela havia dormido a tarde toda, andava muito deprimida. Estava tentando se libertar daquele torpor, mas sentia-se desmotivada.  Nada chamava sua atenção!

Lia os jornais por ler, sem demonstrar nenhum interesse ou assombro com as noticias. A sessão de artes plásticas, que sempre despertou sua curiosidade, não merecia mais que alguns segundos, numa rápida passada de olhos. Por que estava assim tão apática?

Já havia ido a vários médicos e nenhum deles encontrara causa concreta que justificasse este estado de desânimo. Ela continuava presa a lembranças do passado, longe de sua cidade, de sua gente, de sua profissão. O que aquelas férias fizeram com ela? Ela nunca mais fora a mesma pessoa depois daquela temporada na Grécia. Os mais crédulos achavam que era algo espiritual, será que os deuses do Olimpo se levantaram e passaram alguma mensagem?

Silvia voltara mudada, uma mudança de base. Como se outra pessoa habitasse aquele corpo. Os trejeitos eram outros, seu modo de falar rápido e veemente fora trocado por uma fala mais cadenciada e mansa. O olhar andava perdido num vazio no tempo, parecia que ouvia vozes, alguns amigos próximos estavam muito preocupados, ela parecia outra pessoa, outra Silvia, não aquela que eles conheciam.

A viagem à Grécia era um sonho antigo que a vida profissional atribulada de Silvia foi adiando ano após ano. Até que depois de sete anos sem férias – ela colocou a si mesma como prioridade e embarcou na sua viagem dos sonhos, deixando a carreira em segundo plano.

O roteiro fora minuciosamente estudado e revisto várias vezes, aproveitando a oportunidade dos melhores passeios que só acontecem no período do verão. Escolheu as roupas adequadas para um mês de férias  num  maravilhoso resort indicado pela sua agência de viagem de confiança. Conhecer Santorini era sua paixão, o balneário povoava seus sonhos fazia tempo. O resort era cenário de cinema! A diária custava uma pequena fortuna, mas ela merecia – 7 anos sem férias!

Sendo assim, tudo fora programado para uma viagem sem imprevistos, nada justificava a volta de Silvia naquele estado de desânimo.  Amigos acharam esquisito que ela escolhesse um local tão romântico para viajar sozinha, alguns arriscaram que havia um namorado secreto com o qual ela iria se encontrar. Foram apenas suposições, nada foi comprovado.

Os meses foram se passando, Silvia se arrastava do trabalho para casa e da casa para o trabalho. Até sua aparência estava diferente, logo ela que era tão preocupada com o visual, com os cabelos. Andava desleixada, usava roupas amassadas...

Um amigo muito querido, Salvador não aguentou vê-la naquele estado e resolveu investigar. Comprou um bilhete e foi até lá ver se descobria a razão da mudança e da tristeza de Silvia. Chegando a Santorini, ficou no mesmo hotel e perguntou na recepção se eles se lembravam da moça ruiva de cabelos longos que passara o último verão aqui na suíte Peloponeso.

A recepcionista oriental que falava bem inglês se lembrava de Silvia. Ela contou que a moça ruiva acordava cedo e tomava seu café na varanda e depois saia de barco, num barco de aluguel com um marinheiro contratado para visitar as outras ilhas e voltava ao cair da tarde, bem sorridente e parecia feliz! À noite, ela saia com o grupo de hóspedes paulistas do hotel e frequentava as boates da redondeza. Nada de suspeito foi notado. Ela estava sempre sorridente e poucas vezes chamou o serviço de quarto.  Ela saia sempre sozinha de barco, ela e o marinheiro, Nickos, um rapaz conhecido na ilha.

Salvador continuava achando estranho estes passeios de barco, não havia tanta coisa assim para ver... Resolveu alugar outro barco e sair algumas manhãs para investigar se algo de anormal acontecia. O barqueiro contratado disse que Nickos era um rapaz de confiança, era órfão, perdera os pais num desastre de carro e morava com a tia, na região mais pobre do balneário.

Salvador pediu ao seu barqueiro que conseguisse o endereço da tia de Nickos, queria conversar com ela. O rapaz ficou apreensivo em fornecer esta informação, mas Salvador foi enfático e disse que era muito importante e gratificou o informante em 300 euros. Muita coisa estava em jogo agora, ele precisava descobrir a razão da apatia da amiga. O grego arrumou o endereço solicitado e Salvador foi conhecer a tia de Nickos, o marinheiro. Era uma casa simples, mas algo de especial chamou atenção do turista, nas janelas, as cortinas eram pintadas com desenhos abstratos muito parecidos com os que Silvia fizera no inicio da carreira.  Olhou a volta, a casa ficava numa ladeira, bem na esquina de uma avenida movimentada, mas ao passar pelas janelas abertas e cortinas esvoaçantes, Salvador sentiu um cheiro doce muito familiar, que lhe trazia recordações. Decidido, chegou à porta da pequena casa branca com janelas azuis e bateu...

Silêncio! Bateu de novo, ouviu vozes sussurrando... Mas ninguém veio abrir a porta. Ao lado da casa tinha um bar muito simples, Salvador sentou e resolveu esperar para ver se alguém entrava ou saia da casa de Nickos. Quase escurecendo, Salvador viu uma moça saindo da casa com um lenço colorido na cabeça e óculos escuros. Estranhou, a moça olhava para os lados, parecia assustada. Resolveu segui-la de longe... Ela foi até a praia. Tirou o vestido e nadou por algum tempo, depois se sentou na areia e ficou olhando o mar. Salvador chegou mais perto e percebeu que a semelhança com Silvia era absurda. Respirou fundo para oxigenar as ideias. Quando a moça finalmente se levantou para ir embora e foi colocar o lenço e os óculos, ele arriscou e gritou bem alto: SILVIA!!!  - Ela olhou para trás por alguns instantes, procurando de onde vinha aquela voz! Salvador começou a chorar, misturando sensações de stress, medo e prazer. Por que eram tão parecidas - aquela moça simples e a outra Silvia?

Soprou um vento frio, a moça sentiu um arrepio, fazia tempo que ninguém a chamava de Silvia. Aqui na cidade, ela era conhecida por Helena, Silvia Helena era seu nome de batismo, mas pouca gente sabia. Quem era aquele homem que a olhava fixamente? Ele conhecia seu passado? Fora ele que gritara Silvia! Mas quem era ele apenas um turista?

BEBEL POZZI
JUNHO 2013

quinta-feira, 20 de junho de 2013

Para sempre Montenegro*


A musa passava em frente ao Veloso, na esquina da Montenegro com a Prudente de Morais e “Olha que coisa mais linda...”. Foi lá que Vinicius escreveu “Garota de Ipanema” na melodia de Tom. Eu então era criança, só ouvi dizer. Anos depois, era de lei encerrar o sábado naquele botequim. Eu, o Juca e o Sergio “Negão”, abreviado “Nêga”, quando não havia politicamente correto, só correto.
            Juca, o desenhista, era boa pinta. Um dia botou a cabeça para fora do meu Fusca e, com fé no bigode, alvejou a menina mais bonita na calçada da praia de Ipanema: “Ei, gatinha, vou lhe contar uma história linda igual a você...”. Ignorado, queixou-se: “Puxa, nem me deu bola. Orgulhosa...”. E como, ainda assim, não capturasse os olhos da presa, completou com admirável finesse: “Vai cair do orgulho e...dar com os córneos no chão!”. Hora de acelerar e sumir na direção do Arpoador: “Porra, Juca, vai ser grosso assim no inferno!”.
Depois de tal proeza foi proibido de abrir a boca. Sua missão era exibir a estampa e, na primeira flechada certeira, um dos outros falaria pelos tres. Às vezes nem isso dava certo e só nos restava a Mãe de Todas as Cantadas Cretinas “A senhorita não viu, por acaso, um canguruzinho amarelo que fugiu lá de casa?”. A probabilidade de sucesso era a mesma de cravar os treze pontos na loteria esportiva.
O Nêga cursava (modo de dizer) Engenharia e era câmera de estúdio na TV Globo. Acabou promovido ao controle mestre, mandando as imagens ao ar. Isso bastou para nos dar passe livre na emissora de onde, no fim de turno, saíamos para a noitada. Certa vez apresentei minha prima mais nova ao Nêga e combinamos um cinema. Daí por diante ele passou a divulgar para todos o sermão que lhe passei no caminho para pegar as meninas: “Olha lá, hein! É minha prima, viu? Não faça, não aconteça, não isse, não aquile e nem pense em aquiloutrar!”. Eu bem sabia o pilantra que...éramos. Dizia ele que ficou a noite inteira mudo, com as mãos para trás.
Por volta dos vinte anos de idade morávamos em Botafogo, a menos de duzentos metros uns dos outros. As raras namoradas “firmes” eram recambiadas bem cedo, por ordem de pais zelosos, desconfiados do que lhes parecia um bando de celerados (logo nós, tutti buona gente!). Alforriados, rumávamos para Ipanema, ocasionalmente rebocando amigas ou irmãs de alguém, portadoras de sinais de “Mantenha distância”. Às vezes achegavam-se respeitáveis cavalheiros, como o Bode, o Campista, o Piu-Piu e outras figuraças. Noutras, a sessão começava cedo com nomes mais comuns, como o Paul, o Miguel, o Zé Roberto, ou o Martinho e seu irmão Paulinho (que, na época, passava o dia inteiro deitado no sofá, fumando um cigarro atrás do outro e, incrivelmente, metamorfoseou-se no guru de malhação Paulo “Cintura”). Gastávamos o sábado gravando imitações grotescas de anúncios de rádio ou televisão, ou inventando o roteiro de um filme, felizmente abandonado antes de qualquer imagem.
Esticar o sábado à noite no Veloso era obrigatório e a pauta oficial era jogar conversa fora, numa das mesas do Zé. Grande Zé! Nem alto nem baixo, nem magro nem gordo, um pouco calvo, meio sério, dois terços gaiato, boa praça inteiro. Domingo era para dormir até tarde, então o tempo não passava. Nenhum de nós bebia muito, a grana era curta e nos limitava, em geral, a umas duas caipirinhas, ou uns tres chopes, consumidos lentamente e diluídos em tira-gosto. Mesmo assim éramos bem-vindos, a noite toda, num tempo de menos pressa, menos ganância. O Zé ficava esperto e, às vezes, perguntava “Não prefere uma coca-cola?”. Lá pelas tantas, já de tamancos, jogava desinfetante e passava o esfregão no chão. “Não se incomodem comigo”. Botávamos os pés nas cadeiras vazias e ficávamos lá até acabar a limpeza.
Pouco antes do fim do expediente, o garçom avisava: “Tá na hora de fechar, vai a saideira?”. Um dia alguém falou: “Traz qualquer coisa”. Ele voltou com um copo de chope cheio dum líquido cor de tamarindo, uma casquinha de limão e duas pedras de gelo boiando. “Que diabo é isso?”. “O que vocês pediram. Por conta da casa”. O mais corajoso deu um gole. “Muito bom. Mas o que é?”. E ele “Sei lá, misturei o que tinha em quatro garrafas quase vazias que estavam na frente da prateleira. Vai manso, viu?”. Era qualquer coisa mesmo. Passou na roda feito cachimbo da paz. O Zé poderia ser premiado por aquilo em algum concurso de drinques, se ao menos soubesse o quanto do que tinha posto no copo.
Naquela esquina era tudo amor e paz. Brigas, raríssimas. Só me lembro de uma, que começou pequena no fundo do bar e virou pancadaria. Garçons e cozinheiros tentavam apartar, mas a coisa estava ficando feia e a turma, junto com outros fregueses, já se abrigava prudentemente na calçada do outro lado da...Prudente. Ironizavam a confusão à distância até darem por minha falta. Medraram por pouco tempo. Logo fui aplaudido ao atravessar a rua carregando tres copos. “Salvei os chopes”.
Havia, é claro, notórios cachaceiros que moravam por perto e tinham mesas cativas. Um deles era o Cabelinho, patrimônio de Ipanema. Todo dia lá e jamais alguém o viu sóbrio. E sempre aparecia algum desconhecido solitário. Numa noite, na mesa ao lado, um sessentão só largava do uísque para rir das besteiras que dizíamos. O Zé apontou “Aquele ali parece gente fina, mas tá pra cair. Alguém vai ter que levar ele em casa”. “Ele não mora por aqui?”. “Nunca vi, ele veio de carro”.
O sujeito entrou na conversa: “Vocês são estudantes? Meu filho também, está quase se formando. É um gozador igualzinho a vocês”. Seguiu-se nonsense e gargalhadas até que o homem resolveu partir. Levantou-se e congelou “Não dá”. Sentou de novo. E o Zé “Eu avisei, alguém tem de dirigir, senão ele não chega”. Ele concordou “É mesmo, vocês me ajudam?”. Ressabiados, sem saber direito no que nos metíamos, confabulamos e concluímos estar em número suficiente para enfrentar imprevistos. “Cadê o carro?”. Ele apontou um Mercedes esporte, último tipo, branco, reluzente, do outro lado da Montenegro. O mais afoito arregalou os olhos e gritou: “Eu dirijo!”. E fomos, uns cinco ou seis rapazes, duas ou tres moças, e mais o velhote em tres automóveis, um dos quais o carrão pilotado, uma vez na vida, por um eufórico Zé Roberto.
Chegamos a um edifício chique, com um baita jardim na frente, bem no início da Praia de Botafogo. Após rápido diálogo com o morador, o porteiro fez sinal para entrarmos. A esta altura alguns beiravam o pânico, mas todos estavam curiosos. Outro porteiro abriu, solenemente,  as portas de todos os automóveis e convidou-nos a tomar o elevador. No topo, depois de várias tentativas, o cidadão conseguiu domar a fechadura e disse: “Entrem, vocês me fizeram rir muito, vamos fazer um brinde!”.
O apartamento tinha um salão gigantesco com múltiplos ambientes, uma varanda de cinema, estatuetas, quadros raros nas paredes, um monte de suites, lavabos e banheiros, esses últimos rapidamente explorados, pois deixáramos o Veloso sem a visita protocolar ao cubículo. Uma copeira engomadinha materializou-se com gelo, uísque, refrigerantes e salgadinhos, enquanto nosso anfitrião acionava um jazz de primeira. Perguntamos em que trabalhava. “Vivo de renda”, rebatido com a piada inevitável “...confecção?”. O coroa quase engasgou de rir. Daí em diante contou histórias, hilariantes ou horripilantes, de gente bacana e famosa. Aproveitou a excursão das meninas ao banheiro para piadas escabrosas. E repetiu várias vezes que fazia tempo não achava tanta graça em nada.
Pelas quatro da manhã chegou o filho. Deu um beijo na testa do pai e um oi geral, serviu-se do uísque e juntou-se ao grupo como se aquilo fosse rotina. Devia ser. Aos poucos dispensamos a bebida, e foi quando o sol nasceu. Apreciamos o clarear do dia naquele varandão, num silêncio respeitoso, ao som de John Coltrane. Enquanto isso, a empregada arrumou uma mesa enorme e serviu café da manhã. Malgrado o risco saimos de lá, depois das oito, incólumes e incrédulos, certos de que uma aventura daquelas, com final feliz, só podia começar no Veloso.
Mas uma noite, quando chegamos ao bar, soubemos que o Zé tinha morrido, afogado numa praia em Niterói. Com tristeza, cada um de nós derramou, no chão, um chorinho de bebida e fizemos um brinde para nos despedir do “nosso” garçom. Qualquer coisa, nunca mais.
O tempo nos dispersou. Só vi o Juca mais uma vez, rapidamente, ainda morando em Botafogo. O Nêga emigrou para a Espanha. De vez em quando, trocamos notícias e besteiras clássicas por correio eletrônico. Mudamos muito e nada. “Garota de Ipanema”, já naquela época, era emblema do Rio de Janeiro. Vinicius nos deixou, a todos, órfãos de seus poemas, das letras de música que escreveu e das que não escreveu. Porém, assim como os mais velhos, que foram testemunhas da garota, nunca precisaremos de mementos para lembrar da Ipanema dos anos setenta.
Mas, como se sabe, donos e mandatários têm o costume de gravar memórias em placas e reduzir pessoas a logradouros, para soi disant homenageá-las, no fundo com o propósito de se promover ao descerrar a placa ou cortar a fita. E assim fizeram com aqueles ícones de juventudes, alegrias e emoções. O Veloso mudou de nome e de caráter para Garota de Ipanema, no mesmo endereço, que um prefeito qualquer resolveu rebatizar de esquina da rua Vinicius de Moraes com a Prudente.
A canção não precisava virar bar, já era hino e ganhara o mundo. O poeta merecia mais, ele não é só rua. Também é praça, praia, bairro, cidade, país inteiro. E - supremo disparate - para perpetuar a garota que passava por Vinicius, acabaram por perpetrar “uma” Vinicius que passa por “um” Garota. Pois eu não abro mão de enquadrar minhas lembranças nos cenários originais. Aqui, portanto, decreto que o bar continuará Veloso. A rua, para sempre Montenegro.

Rafael Linden

* Publicado originalmente no blog "Um cientista  no telhado" http://umcientistanotelhado.blogspot.com.br
 em 19 de abril de 2012. 


quinta-feira, 13 de junho de 2013

Chove a Vida


Hoje começou a chover e não parou. Quando o dia chove, chove a alma chove a vida. Acredito que a chuva faça você pensar, me faz pensar. Me recolho dentro de mim. É que chuva diminui o ritmo. Dirige-se mais devagar, anda-se com mais cuidado, mastiga-se mais lentamente e dorme-se encolhidinho. Chuva é zelo.

Quando pequena, em Brasília, cidade seca, chuva era festa, alegria, era o próprio respirar. Corria para o quintal e ficava acolhida pelos grandes galhos da mangueira. Nós duas, eu e minha árvore, crescemos juntas e trocamos confidências durante anos. Nós celebrávamos cada pingo. Quando fui embora da casa em que cresci foi a única saudade que não curei, ainda dói. Minha mangueira.

Tem chuva que quase não molha, tem chuva que arrebata e até machuca, tem chuva rápida, tem chuva de verão e tem chuva que vem para ficar. Como os amores na adolescência. Foram muitas chuvas e com elas aprendi que toda chuva passa, me arrependi e até fiquei doente após algumas chuvas e amei, amei cada gota de chuva, chuvisco ou temporal. Na adolescência me molhei!

A chuva faz proteger os filhos. Chove que eu cuido. É um agasalho quentinho, uma capa de chuva ou um guarda chuva. É amor que transborda junto com a água desaguando sobre nós. Cuidar na chuva é diferente. Tem que ficar protegido, pede-se colo.

As vezes, a chuva entristece gente, destrói dolorido, acaba com abrigos, afoga famílias, interrompe histórias. Sai molhando tudo, só não molha o mar. Quando é assim a chuva brota nos olhos também. Chuva é coisa divina que hora falta, hora sobra. Tem reza para chover e tem reza para cessar, chuva é assim...

Num dia chuvoso abre-se um livro, abre-se um vinho, toma-se sopa, brinda-se com chá, abre-se o coração... Tudo é diferente porque temos tempo para desacelerar, para esperar a chuva passar. Chuva é bom sozinho para mergulhar nas vontades, relembrar as histórias e planejar novos rumos. Mas, é bom juntinho também, ficar abraçado, repetir declarações, refazer promessas e planejar viagens. O importante é chover com a chuva!

                                                                                                         
                                                                                            Adriana Barbosa Lima

Que bom temos um blog! Um caminho para seguir...um espaço para continuar...

"Quero escrever movimento puro." Clarice Lispector

sexta-feira, 7 de junho de 2013

Para quem estava com curiosidade, mas não pôde vir ao encontro no dia, aí vai o final do conto "A Fotografia", de Anne-Marie C. Damamme:


Mais ou menos um mês depois, seus filhos discutiam um projeto proposto por uma das filhas de Louise. Tratava-se de fazer ou não uma imagem mortuária...
-Vocês estão loucos! Hoje em dia ninguém mais faz isso!
-Talvez, mas mamãe gostava!
-Tem alguma foto? disse um dos filhos.
-A última foi aquela que Louise detestava, disse Sévérine. Vou buscar.
Todos a examinaram com cuidado.
-Mamãe está ótima!
-É bem ela, seu sorriso.
-Um ar tão sólido, tanto frescor!
Todos concordaram.
A imagem mortuária agradou muito.

Boas Vindas!

Saudações a todos!
Este será o nosso espaço para compartilhar textos (tanto nossos quanto dos nossos queridos autores já consagrados), opiniões e feedbacks. Propagandas de eventos culturais, literários, novas oficinas e todas as demais atividades do gênero serão igualmente bem vindas!
Divirtam-se escrevendo e lendo bastante!