Maria conheceu Antonio por acaso. Não estava nos seus planos
sair de casa naquele dia porque chovia muito e ela nunca gostou de andar na
chuva nem quando era pequena. Mas faltou manteiga para fazer o bolo do lanche
das crianças, eles adoravam comer bolo ao chegarem cansados e suados da escola.
Era um momento feliz, a hora do lanche: bolo quente e Nescau gelado. Pedro e
João viam no ônibus da escola sonhando com o lanche que Maria preparava todas
as tardes de quinta-feira, quando ela vinha fazer a faxina na casa dos meninos.
Fora babá deles quando pequenos, eles cresceram e agora Maria tornara-se apenas
a faxineira, foi assim que a patroa decidiu já que Maria era de confiança e
servira a casa durante tantos anos. Os garotos estavam terminando o ensino
médio.
Maria se preocupava com o futuro, se eles entrassem para a
universidade, será que iam ter folga as quintas à tarde para lancharem juntos e
contarem as novidades da semana? Maria amava aqueles meninos como se fossem
seus filhos. Eles sempre foram muito carinhosos com ela. Iria sentir falta
deste encontro semanal, ela mais que eles com certeza. Os meninos iam aprender
coisas novas na universidade e ela continuaria com sua vida neutra, sem grandes
emoções. O sinal abriu, Maria se preparou para atravessar a rua, olhou para os
2 lados e foi. Misteriosamente um carro surgiu e atropelou Maria. Por sorte,
ele fora atencioso, parara o carro na calçada e saíra para ajudá-la a se
levantar do chão, vestido rasgado, descalça, perdera os chinelos na queda. Ele
se chamava Antonio, era motorista particular, como estava atrasado, avançara o
sinal da rua transversal. Mil desculpas, senhora! Vou levá-la em casa! E levou
de carro, deu a volta no quarteirão e deixou Maria na portaria. Pediu desculpas
novamente e seguiu seu destino: buscar o patrão no aeroporto Santos Dumont.
O lanche daquela tarde
não teve bolo, os meninos ficaram frustrados, mas compreenderam. Maria estava
com os joelhos e cotovelos ralados, mas nada de mais sério ocorrera,
felizmente. O Nescau gelado fora complementado por bolinhos de chuva que ela
preparou rapidamente, devido a sua facilidade na cozinha. Saiu mais cedo naquele
dia, pois queria ir sentada no ônibus para Cascadura, onde morava. Os meninos cobraram
um bolo especial para próxima quinta, com calda de chocolate. Ela prometeu
cumprir a promessa. Chegou em casa cansada e triste, estava com o corpo bem
dolorido.
A semana se passou sem
conflitos, Maria estava de novo na faxina, arrumando os armários dos meninos e
quando se lembrou da promessa do bolo com a calda. Desceu para ir à padaria e
quando passou na portaria; teve uma surpresa - um recado para ela. Maria
recebera uma rosa vermelha com um cartão que dizia: Posso lhe levar em casa
hoje? Antonio.
Ela saiu com a flor numa mão e o dinheiro para as compras na
outra, com seus novos chinelos que a patroa havia comprado. Não estava
chovendo, ela olhou para a esquina com cuidado e atravessou. Ao sair do
mercado, Antonio estava lá esperando por ela. Perguntou de novo: Posso te levar
em casa? Ela corou de vergonha com aquele clima de paquera no ar. Mas aceitou -
Saio às 17h. Ele disse que estaria na esquina esperando.
Os meninos entraram para a universidade e raramente estavam
em casa nos dias da faxina, mas Maria tinha outra preocupação na mente. A
carona de Antonio, ele esperava na esquina pontualmente às 17 horas, todas as quintas-feiras
e planejava pedir-lhe em casamento no Natal.
Bebel Pozzi
Junho/2013
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