terça-feira, 25 de junho de 2013

Tambores

A princípio, ele havia pensado que aquele despertar não passava de mais uma de suas dores de cabeça habituais. Ele demorou para perceber que os tambores em sua cabeça eram reais. Bem reais.
- Acorde, acorde! - Dizia-lhe a voz distante de sua esposa, cutucando-o desconfortavelmente no leito quente e aconchegante. Ele não queria acordar. Era fim de semana. Mas por que ela insistia tanto? E por que sua voz estava tão amedrontada? - Amor, acorde, por favor, não está ouvindo?
“Ouvindo?” foi a resposta, mas foi uma resposta mais para si mesmo. Para a mulher soou algo como um resmungo.
“Ouvindo?” Ora. Sim, ele estava ouvindo. Não era um sonho então? Um de seus pesadelos?


BUM! BUM! BUM! TARAN TAN TAN TAN TAN!


Ele arregalou os olhos de repente e sentou-se de sobressalto. Esfregou os olhos com força. Sim, estava ouvindo.
- É no rádio? - Perguntou ele, pateticamente, sabendo o quão estúpida era a sua pergunta.
- Não! - Respondeu a esposa, relutante - É na rua! - a segunda parte soou um pouco mais esganiçada. Ela mesma percebeu e tapou a boca com uma das mãos quando ouviu sua voz trêmula.
Um vento gélido e inexistente cruzou o quarto, levando todo o aconchego da cama com ele. Não era apenas o som dos tambores, mas também o de gente. Passos em perfeita sincronia de botas marchando, gritos de ensandecido torpor. Oh! Ele nem abrira as janelas, mas já podia ver as bandeiras tremulando, os estandartes desfilando pela avenida, as saudações bem ensaiadas!
- Onde estão as crianças? - perguntou ele, com a voz distante, mas ao mesmo tempo com um vazio repleto de angústia e preocupação.
- Ainda estão na cama...
A esposa mal  havia  terminado  de  falar  quando  ele se levantou e

correu de um só salto até a porta do quarto de seu pequenino casal de gêmeos.
            O pai escancarou a porta e parou abruptamente ao contemplar a paz do sono pesado das crianças. Um soluço escapou por sua garganta e ele se viu levando a mão à boca como fizera a esposa havia pouco.
As mãos geladas da mulher puxaram-no de volta daquele momento de contemplação ao se encontrar com as suas. Ela primeiro encostou o ombro em seu braço, depois aproximou-se mais e colocou a cabeça contra o seu peito, o olhar também fixo nas crianças adormecidas e abençoadamente ignorantes. Ele a abraçou, abraçou forte, como se tentasse passar para ela a calma e a coragem que não possuía. Eles ficaram ali parados no batente da porta do quarto por um bom tempo, o mais completo e absoluto silêncio entre eles, enquanto que ao fundo as paredes da casa tremiam.


BUM! BUM! BUM! TARAN TAN TAN TAN TAN!


- Eu nunca imaginei que eles chegariam até aqui - disse a esposa, por fim.
            Uma eternidade de silêncio em meio ao barulho retumbante se fez até a resposta do marido.
- Eles sempre chegam.

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