Uma
vida seca
Nestes últimos dias, a mídia tem dado destaque à vida e obra
de Graciliano Ramos por causa da proximidade da Flip onde será o
homenageado deste ano.
No sábado, o caderno Prosa do Globo foi dedicado
exclusivamente a Ramos, fazendo uma linha do tempo da sua vida e obra. O que
mais chamou a minha atenção foi o artigo do José Castello onde ele questiona o
porquê da vida de Fabiano ser tão seca. O jornalista coloca um ponto que achei
muito interessante “Fabiano tinha uma vida seca, não apenas pela miséria e fome
que vivenciava no sertão de Alagoas, mas também pela pobreza da linguagem que
ele usava para se expressar”, concluindo que a vida era muito seca porque era
muito silenciosa. Era o silêncio, a falta de linguagem que talvez doesse mais
em Fabiano do que a fome. A falta de conhecimento da linguagem fazia dele um
ser muito mais próximo de sua cadela Baleia e muito distante dos outros homens
que cruzavam o seu caminho.
O ser humano é o único ser vivo que tem a capacidade de se expressar
através da linguagem. Ela reflete a
cultura, as ideias, as crenças de um povo e de seus indivíduos. Questiono se: Fabiano
falasse um pouco melhor e conseguisse transmitir seus desejos, sua vida teria
sido assim tão seca?
A linguagem define o homem que a usa. Nem todos usam a
linguagem de forma idêntica – uns são mais casuais, outros mais formais, e há
ainda os intermediários. A forma como você fala diz muito sobre você! A escolha
dos vocábulos para expressar a ideia que quero passar ao outro revela muito de
mim. As palavras têm sonoridade e intensidade, a forma como as pronuncio
define a conotação mais positiva ou negativa da ideia que transmito ao meu
semelhante.
Ao terminar o artigo do jornal, parei e refleti alguns
minutos. E descobri como a minha vida é rica. Como gosto de poder usar a linguagem com desenvoltura
e com prazer. Adoro ouvir e contar histórias. Neste momento, olhei à minha volta e vi meu
sogro contando para minha filha como havia sido a infância dele, auxiliando o
pai que era alfaiate lá no interior da Bahia.
Como seria se ele não soubesse falar com clareza? Esta experiência de vida teria se perdido.
Peguei minha taça de vinho tinto, fazia frio lá no sitio, mas
senti uma onda de calor e prazer – certo “bonheur”-
por ter este privilégio de falar, ouvir e compreender histórias faladas e
escritas. Poder desfrutar das sutilezas que a literatura nos oferece com seu mágico
mundo da ficção e tudo o mais me pareceu tão distante e pequeno. As tarefas do cotidiano ficaram em outro plano. O vinho
não era nada de especial, mas aquele momento foi único, as ideias do Castello
adicionadas às histórias da família me proporcionaram uma tarde muito leve e
feliz.
Só fiquei com uma dúvida, - já que Ramos era bastante
engajado politicamente, esta colocação do Castello foi intenção do autor – apresentar
nas entrelinhas uma critica social ao analfabetismo sendo uma das causas da
vida seca do nosso personagem Fabiano?
Bebel Pozzi
Junho 2013
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