sexta-feira, 21 de junho de 2013

Uma vida seca


                                                    Uma vida seca

Nestes últimos dias, a mídia tem dado destaque à vida e obra de Graciliano Ramos por causa da proximidade da Flip onde  será o homenageado deste ano.

No sábado, o caderno Prosa do Globo foi dedicado exclusivamente a Ramos, fazendo uma linha do tempo da sua vida e obra. O que mais chamou a minha atenção foi o artigo do José Castello onde ele questiona o porquê da vida de Fabiano ser tão seca. O jornalista coloca um ponto que achei muito interessante “Fabiano tinha uma vida seca, não apenas pela miséria e fome que vivenciava no sertão de Alagoas, mas também pela pobreza da linguagem que ele usava para se expressar”, concluindo que a vida era muito seca porque era muito silenciosa. Era o silêncio, a falta de linguagem que talvez doesse mais em Fabiano do que a fome. A falta de conhecimento da linguagem fazia dele um ser muito mais próximo de sua cadela Baleia e muito distante dos outros homens que cruzavam o seu caminho.

O ser humano é o único ser vivo que tem a capacidade de se expressar através da linguagem.  Ela reflete a cultura, as ideias, as crenças de um povo e de seus indivíduos. Questiono se: Fabiano falasse um pouco melhor e conseguisse transmitir seus desejos, sua vida teria sido assim tão seca?

A linguagem define o homem que a usa. Nem todos usam a linguagem de forma idêntica – uns são mais casuais, outros mais formais, e há ainda os intermediários. A forma como você fala diz muito sobre você! A escolha dos vocábulos para expressar a ideia que quero passar ao outro revela muito de mim. As palavras têm sonoridade e intensidade, a forma como  as pronuncio define a conotação mais positiva ou negativa da ideia que transmito ao meu semelhante.

Ao terminar o artigo do jornal, parei e refleti alguns minutos. E descobri como a minha vida é rica.  Como gosto de poder usar a linguagem com desenvoltura e com prazer. Adoro ouvir e contar histórias.  Neste momento, olhei à minha volta e vi meu sogro contando para minha filha como havia sido a infância dele, auxiliando o pai que era alfaiate lá no interior da Bahia.  Como seria se ele não soubesse falar com clareza?  Esta experiência de vida teria se perdido.

Peguei minha taça de vinho tinto, fazia frio lá no sitio, mas senti uma onda de calor e prazer – certo “bonheur”- por ter este privilégio de falar, ouvir e compreender histórias faladas e escritas. Poder desfrutar das sutilezas que a literatura nos oferece com seu mágico mundo da ficção e tudo o mais me pareceu tão distante e pequeno.  As tarefas  do cotidiano ficaram em outro plano. O vinho não era nada de especial, mas aquele momento foi único, as ideias do Castello adicionadas às histórias da família me proporcionaram uma tarde muito leve e feliz.

Só fiquei com uma dúvida, - já que Ramos era bastante engajado politicamente, esta colocação do Castello foi intenção do autor – apresentar nas entrelinhas uma critica social ao analfabetismo sendo uma das causas da vida seca do nosso personagem Fabiano?

 

 Bebel Pozzi

Junho 2013

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