As férias em Santorini
Ela havia dormido a
tarde toda, andava muito deprimida. Estava tentando se libertar daquele torpor,
mas sentia-se desmotivada. Nada chamava
sua atenção!
Lia os jornais por ler, sem demonstrar nenhum interesse ou
assombro com as noticias. A sessão de artes plásticas, que sempre despertou sua
curiosidade, não merecia mais que alguns segundos, numa rápida passada de
olhos. Por que estava assim tão apática?
Já havia ido a vários médicos e nenhum deles encontrara causa
concreta que justificasse este estado de desânimo. Ela continuava presa a lembranças
do passado, longe de sua cidade, de sua gente, de sua profissão. O que aquelas
férias fizeram com ela? Ela nunca mais fora a mesma pessoa depois daquela
temporada na Grécia. Os mais crédulos achavam que era algo espiritual, será que
os deuses do Olimpo se levantaram e passaram alguma mensagem?
Silvia voltara mudada, uma mudança de base. Como se outra
pessoa habitasse aquele corpo. Os trejeitos eram outros, seu modo de falar
rápido e veemente fora trocado por uma fala mais cadenciada e mansa. O olhar
andava perdido num vazio no tempo, parecia que ouvia vozes, alguns amigos
próximos estavam muito preocupados, ela parecia outra pessoa, outra Silvia, não
aquela que eles conheciam.
A viagem à Grécia era um sonho antigo que a vida profissional
atribulada de Silvia foi adiando ano após ano. Até que depois de sete anos sem
férias – ela colocou a si mesma como prioridade e embarcou na sua viagem dos
sonhos, deixando a carreira em segundo plano.
O roteiro fora minuciosamente estudado e revisto várias
vezes, aproveitando a oportunidade dos melhores passeios que só acontecem no
período do verão. Escolheu as roupas adequadas para um mês de férias num maravilhoso resort indicado pela sua agência
de viagem de confiança. Conhecer Santorini era sua paixão, o balneário povoava
seus sonhos fazia tempo. O resort era cenário de cinema! A diária custava uma
pequena fortuna, mas ela merecia – 7 anos sem férias!
Sendo assim, tudo fora programado para uma viagem sem
imprevistos, nada justificava a volta de Silvia naquele estado de
desânimo. Amigos acharam esquisito que
ela escolhesse um local tão romântico para viajar sozinha, alguns arriscaram que
havia um namorado secreto com o qual ela iria se encontrar. Foram apenas
suposições, nada foi comprovado.
Os meses foram se passando, Silvia se arrastava do trabalho
para casa e da casa para o trabalho. Até sua aparência estava diferente, logo
ela que era tão preocupada com o visual, com os cabelos. Andava desleixada,
usava roupas amassadas...
Um amigo muito querido, Salvador não aguentou vê-la naquele
estado e resolveu investigar. Comprou um bilhete e foi até lá ver se descobria
a razão da mudança e da tristeza de Silvia. Chegando a Santorini, ficou no
mesmo hotel e perguntou na recepção se eles se lembravam da moça ruiva de
cabelos longos que passara o último verão aqui na suíte Peloponeso.
A recepcionista oriental que falava bem inglês se lembrava de
Silvia. Ela contou que a moça ruiva acordava cedo e tomava seu café na varanda
e depois saia de barco, num barco de aluguel com um marinheiro contratado para
visitar as outras ilhas e voltava ao cair da tarde, bem sorridente e parecia
feliz! À noite, ela saia com o grupo de hóspedes paulistas do hotel e
frequentava as boates da redondeza. Nada de suspeito foi notado. Ela estava
sempre sorridente e poucas vezes chamou o serviço de quarto. Ela saia sempre sozinha de barco, ela e o
marinheiro, Nickos, um rapaz conhecido na ilha.
Salvador continuava achando estranho estes passeios de barco,
não havia tanta coisa assim para ver... Resolveu alugar outro barco e sair
algumas manhãs para investigar se algo de anormal acontecia. O barqueiro
contratado disse que Nickos era um rapaz de confiança, era órfão, perdera os
pais num desastre de carro e morava com a tia, na região mais pobre do
balneário.
Salvador pediu ao seu barqueiro que conseguisse o endereço da
tia de Nickos, queria conversar com ela. O rapaz ficou apreensivo em fornecer
esta informação, mas Salvador foi enfático e disse que era muito importante e
gratificou o informante em 300 euros. Muita coisa estava em jogo agora, ele
precisava descobrir a razão da apatia da amiga. O grego arrumou o endereço
solicitado e Salvador foi conhecer a tia de Nickos, o marinheiro. Era uma casa
simples, mas algo de especial chamou atenção do turista, nas janelas, as
cortinas eram pintadas com desenhos abstratos muito parecidos com os que Silvia
fizera no inicio da carreira. Olhou a
volta, a casa ficava numa ladeira, bem na esquina de uma avenida movimentada,
mas ao passar pelas janelas abertas e cortinas esvoaçantes, Salvador sentiu um
cheiro doce muito familiar, que lhe trazia recordações. Decidido, chegou à
porta da pequena casa branca com janelas azuis e bateu...
Silêncio! Bateu de novo, ouviu vozes sussurrando... Mas
ninguém veio abrir a porta. Ao lado da casa tinha um bar muito simples, Salvador
sentou e resolveu esperar para ver se alguém entrava ou saia da casa de Nickos.
Quase escurecendo, Salvador viu uma moça saindo da casa com um lenço colorido
na cabeça e óculos escuros. Estranhou, a moça olhava para os lados, parecia assustada.
Resolveu segui-la de longe... Ela foi até a praia. Tirou o vestido e nadou por
algum tempo, depois se sentou na areia e ficou olhando o mar. Salvador chegou
mais perto e percebeu que a semelhança com Silvia era absurda. Respirou fundo
para oxigenar as ideias. Quando a moça finalmente se levantou para ir embora e
foi colocar o lenço e os óculos, ele arriscou e gritou bem alto: SILVIA!!! - Ela olhou para trás por alguns instantes,
procurando de onde vinha aquela voz! Salvador começou a chorar, misturando
sensações de stress, medo e prazer. Por que eram tão parecidas - aquela moça
simples e a outra Silvia?
Soprou um vento frio, a moça sentiu um arrepio, fazia tempo
que ninguém a chamava de Silvia. Aqui na cidade, ela era conhecida por Helena,
Silvia Helena era seu nome de batismo, mas pouca gente sabia. Quem era aquele
homem que a olhava fixamente? Ele conhecia seu passado? Fora ele que gritara
Silvia! Mas quem era ele apenas um turista?
BEBEL POZZI
JUNHO 2013
BEBEL POZZI
JUNHO 2013
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