sexta-feira, 21 de junho de 2013

Férias em Santorini


                                                     As férias em Santorini

 

 Ela havia dormido a tarde toda, andava muito deprimida. Estava tentando se libertar daquele torpor, mas sentia-se desmotivada.  Nada chamava sua atenção!

Lia os jornais por ler, sem demonstrar nenhum interesse ou assombro com as noticias. A sessão de artes plásticas, que sempre despertou sua curiosidade, não merecia mais que alguns segundos, numa rápida passada de olhos. Por que estava assim tão apática?

Já havia ido a vários médicos e nenhum deles encontrara causa concreta que justificasse este estado de desânimo. Ela continuava presa a lembranças do passado, longe de sua cidade, de sua gente, de sua profissão. O que aquelas férias fizeram com ela? Ela nunca mais fora a mesma pessoa depois daquela temporada na Grécia. Os mais crédulos achavam que era algo espiritual, será que os deuses do Olimpo se levantaram e passaram alguma mensagem?

Silvia voltara mudada, uma mudança de base. Como se outra pessoa habitasse aquele corpo. Os trejeitos eram outros, seu modo de falar rápido e veemente fora trocado por uma fala mais cadenciada e mansa. O olhar andava perdido num vazio no tempo, parecia que ouvia vozes, alguns amigos próximos estavam muito preocupados, ela parecia outra pessoa, outra Silvia, não aquela que eles conheciam.

A viagem à Grécia era um sonho antigo que a vida profissional atribulada de Silvia foi adiando ano após ano. Até que depois de sete anos sem férias – ela colocou a si mesma como prioridade e embarcou na sua viagem dos sonhos, deixando a carreira em segundo plano.

O roteiro fora minuciosamente estudado e revisto várias vezes, aproveitando a oportunidade dos melhores passeios que só acontecem no período do verão. Escolheu as roupas adequadas para um mês de férias  num  maravilhoso resort indicado pela sua agência de viagem de confiança. Conhecer Santorini era sua paixão, o balneário povoava seus sonhos fazia tempo. O resort era cenário de cinema! A diária custava uma pequena fortuna, mas ela merecia – 7 anos sem férias!

Sendo assim, tudo fora programado para uma viagem sem imprevistos, nada justificava a volta de Silvia naquele estado de desânimo.  Amigos acharam esquisito que ela escolhesse um local tão romântico para viajar sozinha, alguns arriscaram que havia um namorado secreto com o qual ela iria se encontrar. Foram apenas suposições, nada foi comprovado.

Os meses foram se passando, Silvia se arrastava do trabalho para casa e da casa para o trabalho. Até sua aparência estava diferente, logo ela que era tão preocupada com o visual, com os cabelos. Andava desleixada, usava roupas amassadas...

Um amigo muito querido, Salvador não aguentou vê-la naquele estado e resolveu investigar. Comprou um bilhete e foi até lá ver se descobria a razão da mudança e da tristeza de Silvia. Chegando a Santorini, ficou no mesmo hotel e perguntou na recepção se eles se lembravam da moça ruiva de cabelos longos que passara o último verão aqui na suíte Peloponeso.

A recepcionista oriental que falava bem inglês se lembrava de Silvia. Ela contou que a moça ruiva acordava cedo e tomava seu café na varanda e depois saia de barco, num barco de aluguel com um marinheiro contratado para visitar as outras ilhas e voltava ao cair da tarde, bem sorridente e parecia feliz! À noite, ela saia com o grupo de hóspedes paulistas do hotel e frequentava as boates da redondeza. Nada de suspeito foi notado. Ela estava sempre sorridente e poucas vezes chamou o serviço de quarto.  Ela saia sempre sozinha de barco, ela e o marinheiro, Nickos, um rapaz conhecido na ilha.

Salvador continuava achando estranho estes passeios de barco, não havia tanta coisa assim para ver... Resolveu alugar outro barco e sair algumas manhãs para investigar se algo de anormal acontecia. O barqueiro contratado disse que Nickos era um rapaz de confiança, era órfão, perdera os pais num desastre de carro e morava com a tia, na região mais pobre do balneário.

Salvador pediu ao seu barqueiro que conseguisse o endereço da tia de Nickos, queria conversar com ela. O rapaz ficou apreensivo em fornecer esta informação, mas Salvador foi enfático e disse que era muito importante e gratificou o informante em 300 euros. Muita coisa estava em jogo agora, ele precisava descobrir a razão da apatia da amiga. O grego arrumou o endereço solicitado e Salvador foi conhecer a tia de Nickos, o marinheiro. Era uma casa simples, mas algo de especial chamou atenção do turista, nas janelas, as cortinas eram pintadas com desenhos abstratos muito parecidos com os que Silvia fizera no inicio da carreira.  Olhou a volta, a casa ficava numa ladeira, bem na esquina de uma avenida movimentada, mas ao passar pelas janelas abertas e cortinas esvoaçantes, Salvador sentiu um cheiro doce muito familiar, que lhe trazia recordações. Decidido, chegou à porta da pequena casa branca com janelas azuis e bateu...

Silêncio! Bateu de novo, ouviu vozes sussurrando... Mas ninguém veio abrir a porta. Ao lado da casa tinha um bar muito simples, Salvador sentou e resolveu esperar para ver se alguém entrava ou saia da casa de Nickos. Quase escurecendo, Salvador viu uma moça saindo da casa com um lenço colorido na cabeça e óculos escuros. Estranhou, a moça olhava para os lados, parecia assustada. Resolveu segui-la de longe... Ela foi até a praia. Tirou o vestido e nadou por algum tempo, depois se sentou na areia e ficou olhando o mar. Salvador chegou mais perto e percebeu que a semelhança com Silvia era absurda. Respirou fundo para oxigenar as ideias. Quando a moça finalmente se levantou para ir embora e foi colocar o lenço e os óculos, ele arriscou e gritou bem alto: SILVIA!!!  - Ela olhou para trás por alguns instantes, procurando de onde vinha aquela voz! Salvador começou a chorar, misturando sensações de stress, medo e prazer. Por que eram tão parecidas - aquela moça simples e a outra Silvia?

Soprou um vento frio, a moça sentiu um arrepio, fazia tempo que ninguém a chamava de Silvia. Aqui na cidade, ela era conhecida por Helena, Silvia Helena era seu nome de batismo, mas pouca gente sabia. Quem era aquele homem que a olhava fixamente? Ele conhecia seu passado? Fora ele que gritara Silvia! Mas quem era ele apenas um turista?

BEBEL POZZI
JUNHO 2013

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