terça-feira, 10 de dezembro de 2013

Dicas de escrita de H.P. Lovecraft

Olá, amigos!
Hoje não venho aqui publicar nenhuma obra original, mas apenas repassar algo de interessante com que me deparei esta semana.
Resolvi reler uma coletânea de contos de H.P Lovecraft que eu tenho há algum tempo - eu e a Pina já comentamos diversas vezes sobre Lovecraft em nossos encontros, lembram? - e me deparei com um apêndice muito interessante em uma dessas edições. É um pequeno texto do autor no qual ele constrói um passo a passo do seu processo de produção literária, com enfoque para contos - mas que, ao meu ver, poderia muito bem servir para romances também. Como achei muito interessante, repasso para vocês aqui:



O processo de escritura, claro, é tão variado quanto a escolha do tema e da ideia inicial; mas se as histórias de todos os meus contos fossem analisadas, é possível que as seguintes regras pudessem ser abstraídas a partir do procedimento padrão:

1 – Prepare uma sinopse ou um cenário para os acontecimentos na ordem em que ocorreram – não na ordem da narrativa. Descreva com riqueza o suficiente para contemplar todos os pontos vitais e motivar todos os incidentes planejados. Detalhes, comentários e estimativas das consequências às vezes são desejáveis nessa estrutura temporária.

2 – Prepare uma segunda sinopse ou cenário para os acontecimentos – agora na ordem da narrativa (não necessariamente na ordem de ocorrência), com grande riqueza de detalhes e notas relativas a mudanças de perspectiva, ênfases e clímax. Faça as alterações necessárias na sinopse original caso essa mudança aumente o impacto dramático ou a eficácia geral do conto. Interpole ou exclua incidentes à vontade – não se prenda jamais à ideia original, mesmo que o resultado seja um conto absolutamente diferente do planejado. Faça acréscimos e alterações na medida em que ocorrerem durante o processo de formação.

3 – Escreva todo o conto – depressa, com fluência e sem tecer muitas críticas – de acordo com a segunda sinopse, na ordem da narrativa. Altere os incidentes e o enredo sempre que o andamento do processo sugerir alterações, sem jamais se ater a qualquer esquema prévio. Se em algum ponto o desenvolvimento revelar novas oportunidades de efeito dramático ou de narração vívida, faça os acréscimos necessários – depois volte atrás e reconcilie as pares preexistentes com o novo plano. Acrescente e exclua seções inteiras de acordo com o necessário ou com o desejado, tentando diferentes inícios e fins até encontrar o melhor arranjo. Certifique-se de que todas as referências ao longo da história estejam completamente adaptadas ao esquema final. Remova todas as excrescências possíveis – palavras, frases, parágrafos ou mesmo episódios e elementos inteiros –, tomando as precauções habituais em relação a conciliar todas as referências.

4 – Revise todo o texto, com especial atenção ao vocabulário, à sintaxe, ao ritmo da prosa, à proporcionalidade das partes, às sutilezas do tom, à graça e ao poder persuasivo das transições (de uma cena a outra, da ação lenta e detalhada à ação rápida e superficial e vice versa), à eficácia do início, do fim, dos clímaxes, etc., ao suspense e ao interesse dramático, à plausibilidade, à atmosfera e a vários outros elementos.

5 – Prepare uma cópia datilografada* – acrescentando revisões finais conforme o necessário. 

H.P.Lovecraft.
Data desconhecida.



*nos dias atuais, impressa.

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

Pinguins e Mandelas

Há exatos 19 meses escrevi a crônica abaixo, publicada no blog "Um cientista no telhado":

Pinguins e Mandelas

          A revista eletrônica do Smithsonian Institute publicou um artigo excelente sobre pinguins africanos*. Não mude de canal, prometo que vai ficar interessante.
          O autor escreve sobre meio ambiente e é um fotógrafo premiado. O texto é acompanhado de fotos e filmes produzidos junto a uma equipe de cientistas que estuda esta variedade de ave, a qual se encontra no rumo da extinção (os pinguins, não os cientistas). Aliás, entre outras coisas aprendi que, diferente do que eu pensava, não apenas há diversas variedades de pinguins fora da Antártida, como são poucas as espécies que gostam de viver on the rocks.

          A particularidade é que estes pinguins habitam uma ilha a uns dez quilômetros da costa sul-africana. Lá mantém seus ninhos em torno de uma prisão desativada dentro da qual, junto com outros companheiros de luta, Nelson Mandela viveu dezoito dos vinte e sete anos em que ficou encarcerado pelo regime doapartheid sul-africano**.
          Ou seja, o artigo trata de duas espécies em extinção. Pinguins africanos e líderes humanos do bem. Muito embora a já tardia agenda ambiental seja mais do que necessária e bem-vinda, parece que hoje em dia muitas cabeças pensantes andam desinteressadas da segunda espécie.
          Talvez porque se considere que meio ambiente tornou-se um tópico indiscutivelmente universal, enquanto as mazelas dos outros não nos dizem respeito. Afinal, cada famíia infeliz não o é à sua maneira? Mas não é boa idéia nos conformar com um único medo. Mandelas e outros exemplares dessa espécie rara de bicho-homem farão muita falta em futuro próximo.

Rafael Linden

* O artigo de Charles Bergman sobre os pinguins está no link http://www.smithsonianmag.com/travel/Make-Way-for-the-African-Penguins.html
** Outro artigo, de Scott Johnson, sobre a prisão na Ilha Robben está no linkhttp://www.smithsonianmag.com/travel/Robben-Island-A-Monument-to-Courage.html

segunda-feira, 16 de setembro de 2013

ATORMENTADO


ESCREVER É MUITO MAIS DO QUE O 
SIMPLES ATO QUER SER EM SUA SOLIDÃO.
É NECESSIDADE QUE EXPLODE.
PRESSÃO. LAVA QUE DERRAMA.
SÃO PENSAMENTOS QUE ATORMENTAM. 
NÃO SE PODE MAIS GUARDAR.
SÃO IDÉIAS QUE AFAGAM, ACALMAM, 
MAS PRECISAM TE DEIXAR.
AS MÃOS JÁ NÃO PERTENCEM 
AO CORPO QUE AS COMPLETA.
É ATO DESORDEIRO. 
O AVESSO DA VONTADE. 
PURO ACONTECIMENTO.
AS PALAVRAS TÊM VONTADE PRÓPRIA. 
ASSUMEM O COMANDO. 
DERRAMAM DO INTELECTO, 
SE TORNAM INDEPENDENTES.
CRIAM E DESTROEM AMORES.
CONSTROEM MURALHAS, DEPOIS AS DERRUBAM.
É PURO PODER QUE FOGE DO CONTROLE -CUIDADO!
ESCREVER É INSANO E INEVITÁVEL. 
ATO QUE DÓI E DESTROÇA.
DEVASSA A ALMA.

Adriana Carrilho Barbosa Lima

terça-feira, 20 de agosto de 2013

Ele a viu de longe...


                                              Ele a viu de longe...

 

Ele a viu de longe, pela primeira vez, no campus da universidade onde trabalhava. A imagem dela, os cabelos longos e brilhantes sob o efeito do vento o impressionaram... Havia leveza no modo como se movimentava, ela não era uma moça qualquer. Nela nada havia de vulgar ou comum, ela era simples, mas era única.

Por sorte, os horários dele tinham sintonia com os dela, e outros encontros fortuitos aconteceram e o deixaram mais alegre. Ela ainda não o tinha notado, ele era apenas mais um professor da universidade, tomando café no bar. Nada de especial chamava a atenção dela sempre preocupada com as provas e monografias.

Um dia, se encontraram no elevador, ele sentiu um calafrio, sentiu o perfume dela e até o calor do seu corpo quando se esbarram ao sair. Aquela sensação deliciosa de proximidade o acompanhou por muitos dias.  O semestre acabou e as férias chegaram. Neste verão ele não viajou, ficou em casa na companhia de seus livros e saiu poucas vezes para visitar amigos. Aos sábados, ia até o café da esquina e via Clara (este era seu nome) em todas as moças magras e elegantes que passavam casualmente pela rua. Clara, bonito nome - pensou.

Novo semestre se inicia, o destino resolve ajudar o professor.  Sua musa decide acompanhar alguns amigos e fazer a matéria dele como eletiva. Primeira aula, lá está ela sentada na primeira fila, conversando animada com os colegas. A inércia toma conta dos movimentos dele por alguns segundos ao vê-la, mas logo se refaz , cumprimenta a turma e inicia a aula. Ela comenta com os amigos que o professor conhece a fundo o assunto e fica positivamente impressionada.

Sempre assídua, não falta nenhuma aula e com um pouco de mágica forma-se uma conexão entre eles.  Os amigos dela, antigos alunos do professor, marcam um chope. A noite transcorre alegre e animada, ao saírem o professor pergunta se ela quer uma carona, levemente tímida, ela aceita. Ao saber, que iriam de táxi, ela se sente mais a vontade e elogia as aulas.  Ele aproveita o clima e pergunta se ela se forma neste semestre.  Ainda não sei – respondeu sem cerimônia. Estou em dúvida sobre o trabalho final – continuou - E o que fazer a seguir vou pensar mais um semestre- concluiu. Gentilmente, ele se oferece para orientá-la se necessário. Ela sorri agradecida.

As dúvidas dela serviram de pretexto para muitos outros encontros e conversas; aos poucos, ela descobriu o homem sensível, culto e cativante que se escondia debaixo da máscara do sério professor Theo.

Theo se apaixonou não apenas pela forma elegante, jovem e viva de ser de Clara, mas também por sua delicadeza, sensibilidade e educação. A diferença de idade era expressiva, entretanto a sintonia emocional era perfeita. Os amigos torciam por eles, o namoro se solidificou e Clara iniciou o mestrado, fez sua tese sobre Henri Bérgson (um dos filósofos favoritos de Theo). Convivendo com Clara, Theo remoçou alguns anos, incorporando mais leveza ao seu viver.

Para comemorar a conclusão do mestrado de Clara, planejaram uma viagem à França. Começaram por Paris e de lá partiram rumo a Nice onde iniciaram a visita às cidades da Riviera Francesa – Mônaco, Antibes, St. Tropez e Cannes, e não faltou uma visita ao Cassino de Monte Carlo. Os dias foram de sol e clima quente sem exageros, as noites embaladas a vinho branco gelado, aproveitando a vida noturna das cidades durante o verão europeu.

As férias na França foram inesquecíveis, recordações maravilhosas que até hoje enchem de alegria o coração de Theo.  Poucos dias, após a volta ao Rio, Clara sentiu-se mal e desmaiou – amigos mais próximos apostaram numa provável gravidez, depois de viagem tão romântica. Infelizmente estavam todos errados.  Ela estava com câncer e morreu seis meses depois; Theo perdeu o rumo, não sabia para onde ir tamanha era a tristeza que encharcava sua vida. Sentia uma falta imensa da alegria e vivacidade de Clara.  

Já faz algum tempo que Clara partiu, mas ele ainda pensa muito nela.   E frequentemente, no escuro do seu quarto, sozinho, revê as fotos da viagem tentando amenizar a saudade que sente. Theo ainda não digeriu a perda do seu grande amor, ele continua dando aulas na universidade e sonha em ver de longe alguém como ela...

 

Bebel Pozzi

Junho 2013

Brilhantes Olhos Azuis


                                          Brilhantes olhos azuis

 

A amizade entre nossas famílias já fazia tempo, quando o fato que vou contar aconteceu - a imagem da sua entrada triunfal na festa de 70 anos do meu pai. Ela estava deslumbrante num vestido preto bem decotado e o pescoço adornado por um belíssimo colar de pérolas. Apesar do vestido preto, ela brilhava no salão como se vestisse ouro atraindo olhares masculinos. Irradiava luz e vida com sua pele bronzeada e simpatia.  Nossa festa transcorreu tranquila e ela com seu olhar observador percebeu ser  o assunto da noite entres eles (homens).

Alguns anos se passaram depois daquela noite quente de verão, uns se foram e outros chegaram e as famílias amigas se tornaram uma só. Meu pai viúvo não resistiu aos belos e brilhantes olhos azuis dela. A sua alegria e o entusiasmo transformaram a vida dele, com muitos amigos, festas e viagens.  Ganhamos nós também uma casa nova com piscina, churrascos e almoços no jardim. E muitas conversas e presentes. Ela gosta muito de conversar e coleciona álbuns de fotografia de suas viagens. Com fotos de verdade, impressas à moda antiga e classificadas por nome e lugar.

Para os mais novos, ela é a vovó, cheia de energia que gosta de brincar e ir ao teatro. Para os mais velhos, ela tem sempre aquele olhar atento e observador para ver se tudo está perfeito.

Ela continua brilhando e fazendo festas. Ao completar 75 anos, comemoramos com uma noite maravilhosa regada à boa bebida, música, gente bonita e máscaras que deram um tom a mais ao evento. Segundo ela toda sua alegria era fruto de poder festejar os 15 anos pela quinta vez – com saúde e ótima forma física - uma benção divina!

Recentemente, fomos a um casamento juntas e desta vez o vestido  dela era longo e roxo como o traje dos bispos e o lindo colar de pérolas voltou a circular pelos salões. A elegância contava com seu melhor adereço: as brilhantes contas azuis que emanam luz própria e energia.

Meu pai está cada dia mais jovem e bem disposto e já faz planos para  comemorar seus 90 anos, que estão quase chegando...  Nós continuamos  contentes por contar com a ajuda da madrastinha boa que cuida da gente com carinho e generosidade.

 

Bebel Pozzi

18/08/2013

terça-feira, 6 de agosto de 2013

Olha


 
           Inhotim/ Oiticica


             Olha...
                Permita-se!
                    Olha bem...
                       Olha além desta janela...
                            Faz um esforço.
                                Olha além da forma...
                                        Busca!
                                             O que vê!?
                                                 Fala!
                                                     Me diz...

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Má Notícia

                                                OBRA DE BELMIRO DE ALMEIDA


Má Notícia


Ela sempre esperou aquela notícia, sempre soube que chegaria. Mas ainda assim, quando aconteceu, seu mundo ruiu. Era o fim. Acabavam seus sonhos e pesadelos. Alegrias e angústias. Terminava sua existência.

Ela era indomável. Sempre foi assim... Fez suas escolhas, tomou decisões, enfrentou o mundo e seus preconceitos. Ele era um fraco, um poeta atormentado, apenas lutava em suas palavras, mas, diante da realidade, se encolhia e aceitava.

Se conheceram no inverno, cercados de pessoas vazias, mas cheias de si. Era mais uma tarde de chá na casa do Conde D'Azur. Toda a elite estava ali reunida. Pessoas selecionadas que se gabavam de suas vestimentas e exibiam seu profundo vazio disfarçado em longas risadas e conversas sobre o tempo. Era apenas isso que acontecia entre uma e outra xícara de chá inglês da melhor qualidade.

Ah! A música era boa, sempre bem escolhida. Tchaikovsky, Sonhos de Inverno. Sua música preferida. Ela compreendia bem este compositor. Cada nota penetrava seus ossos e arrepiava seu corpo por inteiro. Esta sensação que buscava no outro, queria uma paixão que arrebatasse seus sentimentos, que a fizesse ver estrelas. E nunca aceitou menos que isso. Não foi fácil. Sua existência feminina não lhe permitia tantos quereres. Ela desejava e sonhava com seus prazeres. Em silêncio.

Naquela tarde o conhecera. Interessante. Ele também não se encaixava naquele quadro, onde tudo estava na mesma sintonia. E foi assim que começou. Um amor de inverno, uma paixão arrebatadora. Bastou um olhar e eles souberam. Um passeio pelo jardim, algumas palavras, muitos olhares, risadas e brilho no olhar. Ela tinha o encontrado.

Ele se apaixonou. Aquela liberdade o encantara desde o primeiro instante. Era uma mulher sem todas aquelas formalidades que a época exigia. Era uma espécie rara, ao natural, sobretudo livre. Cabelos de fogo, soltos, olhos amendoados e selvagens, pronunciava palavras doces com a mesma facilidade que as ácidas. Olhava dentro dos olhos dele e assim ele se perdia. Ela o despia.

Era um amor impossível. Ele casaria em cinco dias. Era um casamento que juntaria as duas maiores fortunas da região. A noiva, lindíssima, sempre lhe atraiu, mas sabia que não a amava. Uma jovem cuja a maior preocupação era o alinhamento de seu chapéu. Ele sentia quase pena daquela existência tão fútil.

Ela já havia se rebelado contra inúmeros pretendentes e agora carregava este peso em seus ombros.
Seu pai desistira e sentia-se completamente infeliz por estas amarras do destino. Era uma fera indomável. Ela não se encaixava, nunca fez parte daquela sociedade.

O amor aconteceu, não havia opção. Apenas se entregaram e viveram intensamente. Ela nada temia e ele se encantara com a sua bravura. Aquela mulher tão inteira, tão destemida. Bastava um olhar e penetravam um na alma do outro. Era assim, denso.

Ele se casou. Ela sofreu. Não conseguia entender porque ele não tinha a sua força. Ela lutaria com leões e, sem dúvida nenhuma, os derrotaria. Sua natureza era assim, uma guerreira. Ele era um fraco. Ela o amava tanto.

Continuaram se encontrando, sempre conseguiam. E se amavam, como se amavam... Ela não o cobrava. Mas ele conhecia muito bem sua fraqueza e o preço que os dois pagavam por isso. Ele passou a viver atormentado naquela vida dupla na qual não queria encenar. Havia um grito dentro dele, um furacão, não podia viver assim. Seria fatal.

E assim foi. Numa tarde em que a deixara esperando porque não conseguiu desviar a atenção da esposa e de suas visitas, aquele grito que o habitava, saiu. Todos ouviram o som do tiro vindo do escritório. O grito saiu. Era o fim.

Ela recebeu uma carta. Ele a enviara através de um criado. Disse que a estava libertando, pois a amava demais. Aquela música a acompanhava. Tchaikovsky. Sentiu uma dor que atravessava a alma. Doía. Não sabia como continuar.


Adriana Carrilho Barbosa Lima

terça-feira, 30 de julho de 2013

Os Reinos Prósperos




Narrado por Ilguri Aliguieris, com prefácio de Enelidir de Algamanthis, plagiado e ilegalmente divulgado por Li Rocha





Os Reinos Prósperos

Prefácio

Por Enelidir de Algamanthis, Lorde de Ulgamória

O conto a seguir foi romantizado por Ilguri Aliguieris, o elfo, baseado num dos muitos tomos de memórias do grande mago Galbeldore. Os famosos pergaminhos contendo os relatos do mago lhe foram deixados de herança pelo Barão de Hallenfellow para que servissem de base para seus estudos sobre a História da Era de Ouro dos Três Reinos de Kanthireia. Após anos debruçando-se sobre os relatos, período que incluiu inúmeras tentativas frustradas de conseguir uma entrevista com o autor dos documentos, o renomado cronista compilou-os em forma de prosa fantástica, para que pudesse ser lida tal qual a literatura tradicional de Faleresëa. É, pois, com muita honra que eu fui convidado pelo cronista e historiador a escrever a abertura deste trecho da Grande Saga dos Feikírias.
Começo, então, o meu adendo. Embora este primeiro conto se passe dez anos após a Última Batalha, creio que uma breve volta no tempo seja ideal a fim de que o contexto da narrativa se faça melhor localizado. Neste sentido, podemos dizer que tudo começou com a autocoroação do Imperador Thelmund, o Pródigo, e o levante de sua rebelião contra Ulgalmord, o Senhor do Escuro. Ao nascer do sol daquele que seria marcado como o primeiro dia da Quinta Era, os exércitos aliados de todos os povos livres de Kanthireia marcharam sob o comando de Thelmund e se embateram com as forças de Ulgamord aos pés do monte Tlahlgurdók. A Última Batalha, como todos viemos a conhecê-la, durou do alvorecer ao crepúsculo e pôs fim aos sete séculos da Idade das Trevas imposta por Lorde Ulgamord sobre Kanthireia. Muitas vidas foram perdidas em troca da Liberdade, incluindo a do próprio imperador Thelmund, que caiu em batalha ao duelar pessoalmente o Lorde das Trevas. Contudo, a justiça prevaleceu e o Senhor de todo o mal foi destruído nos campos de batalha daquele dia esplendoroso.
Com o Imperador morto, no entanto, o domínio foi dividido por seus três lugares-tenentes: Alorina, a Justa, asseguroupara si o cetro e as terras da Arlísia; Dagmar, o Esperto, sentou-se no trono da Astória e Ellinor, o Ousado, pôs sobre a cabeça a coroa de Thargobar. O povo de Kanthireia prendeu a respiração e relutou em comemorar de imediato o alívio causado pela queda de Ulgamord. Todos permaneceram apreensivos diante da iminente extensão do conflito na forma de uma guerra civil entre os lugares tenentes pela posse total do Império. Porém, algo inesperado ocorreu: reunidos na

quinta-feira, 25 de julho de 2013

Domingo de Maio



Segundo domingo de maio. Dia das mães. É preciso ir ao mercado, abastecer para o almoço. Ando pelas ruas ainda sonolentas do meu bairro. Meu filho me acompanha, com a curiosidade peculiar dos que tem a sua idade. Quer saber onde estão os carros, as pessoas, os ônibus, tão presentes durante a semana. Explico a excepcionalidade da ocasião e ele entende ou finge entender. Entretanto, nós dois nos surpreendemos quando chegamos ao nosso destino: os corredores estreitos do mercado lembram um formigueiro humano, com seu vai-e-vem de gente e carrinhos de compra. Dois pensamentos me alcançam, quase que ao mesmo tempo: 1) aquele é o último lugar do mundo em que eu gostaria de entrar; e 2) da próxima vez, devo sair de casa ainda mais cedo. Sem alternativa, acabamos nos juntando à multidão, no afã de comprar os mantimentos.
Como sempre acontece nessas ocasiões, nossa cesta vai miraculosamente se enchendo de doces e balas, que tento inutilmente descartar pelas prateleiras à medida que avançamos. A conferência da lista de compras é o momento crucial da empreitada, pois dela depende a tranquilidade do restante da manhã. Checo uma, duas vezes. Preciso me certificar de que está tudo ali. Folhas e legumes para a salada; os ingredientes do prato principal: espaguete e creme de leite; sorvete para a sobremesa. Confere. Resta enfrentar a fila do caixa. Muita paciência deve ter o cidadão nessa hora. Escolho a fila que me parece mais promissora.
Chega a nossa vez. A mocinha quer saber se possuímos o cartão do lugar, a fim de nos credenciar para as promoções. Digo que sim. Aguardo que ela registre todos os volumes e entrego o cartão.
– Ih, tinha que ter me dado antes, agora não tenho mais como fazer o desconto.
Cria-se um impasse. Os outros fregueses se impacientam. Todos parecem nos olhar com ares de reprovação. Quero ir embora, mesmo sem o merecido desconto. De repente, um sorriso.
– Vamos registrar tudo de novo, agora passando o cartão primeiro.
Ela chama a supervisora e pede autorização para zerar a registradora. Reinicia o trabalho. No final, empacota tudo e me deseja um bom domingo. É tudo o que anseio, e devolvo o cumprimento. Pensativo, tomo o caminho de volta segurando meu filho pela mão. Tento lembrar a partir de quando o que deveria ser considerado normal e correto passou a nos parecer extraordinário. Não consigo.
Ser cordial não é pecado nem vergonha. A cordialidade de uma desconhecida, forçada a se ausentar de casa naquele domingo tão especial, infelizmente soa agora mais como utopia do que como realidade.
Consegue ser cordial quem é feliz. O assunto remete à historia do francês que, após defender uma tese de doutorado, desistiu da vida acadêmica para viver num monastério budista. Até aí, nada de mais. O que surpreende é que ele foi considerado o homem mais feliz do mundo, conclusão a que chegaram os cientistas da Universidade de Wisconsin depois de medirem a atividade do seu córtex pré-frontal esquerdo, área do cérebro relacionada à felicidade. Prova irrefutável de que não é preciso possuir mais do que o necessário para se viver em harmonia. Ao contrário, parece que o supérfluo e o dispensável acabam se tornando insustentáveis, levando a um estado crescente de ansiedade ao longo dos anos.
            Retorno ao lar envolto por esses pensamentos, mas com a agradável sensação do dever cumprido. Pena que ela só dure até descobrir que a massa correta para a macarronada era o talharim.

Oswaldo Vilella

terça-feira, 25 de junho de 2013

Tambores

A princípio, ele havia pensado que aquele despertar não passava de mais uma de suas dores de cabeça habituais. Ele demorou para perceber que os tambores em sua cabeça eram reais. Bem reais.
- Acorde, acorde! - Dizia-lhe a voz distante de sua esposa, cutucando-o desconfortavelmente no leito quente e aconchegante. Ele não queria acordar. Era fim de semana. Mas por que ela insistia tanto? E por que sua voz estava tão amedrontada? - Amor, acorde, por favor, não está ouvindo?
“Ouvindo?” foi a resposta, mas foi uma resposta mais para si mesmo. Para a mulher soou algo como um resmungo.
“Ouvindo?” Ora. Sim, ele estava ouvindo. Não era um sonho então? Um de seus pesadelos?


BUM! BUM! BUM! TARAN TAN TAN TAN TAN!


Ele arregalou os olhos de repente e sentou-se de sobressalto. Esfregou os olhos com força. Sim, estava ouvindo.
- É no rádio? - Perguntou ele, pateticamente, sabendo o quão estúpida era a sua pergunta.
- Não! - Respondeu a esposa, relutante - É na rua! - a segunda parte soou um pouco mais esganiçada. Ela mesma percebeu e tapou a boca com uma das mãos quando ouviu sua voz trêmula.
Um vento gélido e inexistente cruzou o quarto, levando todo o aconchego da cama com ele. Não era apenas o som dos tambores, mas também o de gente. Passos em perfeita sincronia de botas marchando, gritos de ensandecido torpor. Oh! Ele nem abrira as janelas, mas já podia ver as bandeiras tremulando, os estandartes desfilando pela avenida, as saudações bem ensaiadas!
- Onde estão as crianças? - perguntou ele, com a voz distante, mas ao mesmo tempo com um vazio repleto de angústia e preocupação.
- Ainda estão na cama...
A esposa mal  havia  terminado  de  falar  quando  ele se levantou e

correu de um só salto até a porta do quarto de seu pequenino casal de gêmeos.
            O pai escancarou a porta e parou abruptamente ao contemplar a paz do sono pesado das crianças. Um soluço escapou por sua garganta e ele se viu levando a mão à boca como fizera a esposa havia pouco.
As mãos geladas da mulher puxaram-no de volta daquele momento de contemplação ao se encontrar com as suas. Ela primeiro encostou o ombro em seu braço, depois aproximou-se mais e colocou a cabeça contra o seu peito, o olhar também fixo nas crianças adormecidas e abençoadamente ignorantes. Ele a abraçou, abraçou forte, como se tentasse passar para ela a calma e a coragem que não possuía. Eles ficaram ali parados no batente da porta do quarto por um bom tempo, o mais completo e absoluto silêncio entre eles, enquanto que ao fundo as paredes da casa tremiam.


BUM! BUM! BUM! TARAN TAN TAN TAN TAN!


- Eu nunca imaginei que eles chegariam até aqui - disse a esposa, por fim.
            Uma eternidade de silêncio em meio ao barulho retumbante se fez até a resposta do marido.
- Eles sempre chegam.

sexta-feira, 21 de junho de 2013

Uma vida seca


                                                    Uma vida seca

Nestes últimos dias, a mídia tem dado destaque à vida e obra de Graciliano Ramos por causa da proximidade da Flip onde  será o homenageado deste ano.

No sábado, o caderno Prosa do Globo foi dedicado exclusivamente a Ramos, fazendo uma linha do tempo da sua vida e obra. O que mais chamou a minha atenção foi o artigo do José Castello onde ele questiona o porquê da vida de Fabiano ser tão seca. O jornalista coloca um ponto que achei muito interessante “Fabiano tinha uma vida seca, não apenas pela miséria e fome que vivenciava no sertão de Alagoas, mas também pela pobreza da linguagem que ele usava para se expressar”, concluindo que a vida era muito seca porque era muito silenciosa. Era o silêncio, a falta de linguagem que talvez doesse mais em Fabiano do que a fome. A falta de conhecimento da linguagem fazia dele um ser muito mais próximo de sua cadela Baleia e muito distante dos outros homens que cruzavam o seu caminho.

O ser humano é o único ser vivo que tem a capacidade de se expressar através da linguagem.  Ela reflete a cultura, as ideias, as crenças de um povo e de seus indivíduos. Questiono se: Fabiano falasse um pouco melhor e conseguisse transmitir seus desejos, sua vida teria sido assim tão seca?

A linguagem define o homem que a usa. Nem todos usam a linguagem de forma idêntica – uns são mais casuais, outros mais formais, e há ainda os intermediários. A forma como você fala diz muito sobre você! A escolha dos vocábulos para expressar a ideia que quero passar ao outro revela muito de mim. As palavras têm sonoridade e intensidade, a forma como  as pronuncio define a conotação mais positiva ou negativa da ideia que transmito ao meu semelhante.

Ao terminar o artigo do jornal, parei e refleti alguns minutos. E descobri como a minha vida é rica.  Como gosto de poder usar a linguagem com desenvoltura e com prazer. Adoro ouvir e contar histórias.  Neste momento, olhei à minha volta e vi meu sogro contando para minha filha como havia sido a infância dele, auxiliando o pai que era alfaiate lá no interior da Bahia.  Como seria se ele não soubesse falar com clareza?  Esta experiência de vida teria se perdido.

Peguei minha taça de vinho tinto, fazia frio lá no sitio, mas senti uma onda de calor e prazer – certo “bonheur”- por ter este privilégio de falar, ouvir e compreender histórias faladas e escritas. Poder desfrutar das sutilezas que a literatura nos oferece com seu mágico mundo da ficção e tudo o mais me pareceu tão distante e pequeno.  As tarefas  do cotidiano ficaram em outro plano. O vinho não era nada de especial, mas aquele momento foi único, as ideias do Castello adicionadas às histórias da família me proporcionaram uma tarde muito leve e feliz.

Só fiquei com uma dúvida, - já que Ramos era bastante engajado politicamente, esta colocação do Castello foi intenção do autor – apresentar nas entrelinhas uma critica social ao analfabetismo sendo uma das causas da vida seca do nosso personagem Fabiano?

 

 Bebel Pozzi

Junho 2013

Maria conheceu Antonio por acaso....


Maria conheceu Antonio por acaso. Não estava nos seus planos sair de casa naquele dia porque chovia muito e ela nunca gostou de andar na chuva nem quando era pequena. Mas faltou manteiga para fazer o bolo do lanche das crianças, eles adoravam comer bolo ao chegarem cansados e suados da escola. Era um momento feliz, a hora do lanche: bolo quente e Nescau gelado. Pedro e João viam no ônibus da escola sonhando com o lanche que Maria preparava todas as tardes de quinta-feira, quando ela vinha fazer a faxina na casa dos meninos. Fora babá deles quando pequenos, eles cresceram e agora Maria tornara-se apenas a faxineira, foi assim que a patroa decidiu já que Maria era de confiança e servira a casa durante tantos anos. Os garotos estavam terminando o ensino médio.

Maria se preocupava com o futuro, se eles entrassem para a universidade, será que iam ter folga as quintas à tarde para lancharem juntos e contarem as novidades da semana? Maria amava aqueles meninos como se fossem seus filhos. Eles sempre foram muito carinhosos com ela. Iria sentir falta deste encontro semanal, ela mais que eles com certeza. Os meninos iam aprender coisas novas na universidade e ela continuaria com sua vida neutra, sem grandes emoções. O sinal abriu, Maria se preparou para atravessar a rua, olhou para os 2 lados e foi. Misteriosamente um carro surgiu e atropelou Maria. Por sorte, ele fora atencioso, parara o carro na calçada e saíra para ajudá-la a se levantar do chão, vestido rasgado, descalça, perdera os chinelos na queda. Ele se chamava Antonio, era motorista particular, como estava atrasado, avançara o sinal da rua transversal. Mil desculpas, senhora! Vou levá-la em casa! E levou de carro, deu a volta no quarteirão e deixou Maria na portaria. Pediu desculpas novamente e seguiu seu destino: buscar o patrão no aeroporto Santos Dumont.

O lanche  daquela tarde não teve bolo, os meninos ficaram frustrados, mas compreenderam. Maria estava com os joelhos e cotovelos ralados, mas nada de mais sério ocorrera, felizmente. O Nescau gelado fora complementado por bolinhos de chuva que ela preparou rapidamente, devido a sua facilidade na cozinha. Saiu mais cedo naquele dia, pois queria ir sentada no ônibus para Cascadura, onde morava. Os meninos cobraram um bolo especial para próxima quinta, com calda de chocolate. Ela prometeu cumprir a promessa. Chegou  em  casa cansada e triste, estava com o corpo bem dolorido.

 A semana se passou sem conflitos, Maria estava de novo na faxina, arrumando os armários dos meninos e quando se lembrou da promessa do bolo com a calda. Desceu para ir à padaria e quando passou na portaria; teve uma surpresa - um recado para ela. Maria recebera uma rosa vermelha com um cartão que dizia: Posso lhe levar em casa hoje? Antonio.

Ela saiu com a flor numa mão e o dinheiro para as compras na outra, com seus novos chinelos que a patroa havia comprado. Não estava chovendo, ela olhou para a esquina com cuidado e atravessou. Ao sair do mercado, Antonio estava lá esperando por ela. Perguntou de novo: Posso te levar em casa? Ela corou de vergonha com aquele clima de paquera no ar. Mas aceitou - Saio às 17h. Ele disse que estaria na esquina esperando.

Os meninos entraram para a universidade e raramente estavam em casa nos dias da faxina, mas  Maria tinha outra preocupação na mente. A carona de Antonio, ele esperava na esquina pontualmente às 17 horas, todas as quintas-feiras e planejava pedir-lhe em casamento no Natal.

  

Bebel Pozzi

Junho/2013

Férias em Santorini


                                                     As férias em Santorini

 

 Ela havia dormido a tarde toda, andava muito deprimida. Estava tentando se libertar daquele torpor, mas sentia-se desmotivada.  Nada chamava sua atenção!

Lia os jornais por ler, sem demonstrar nenhum interesse ou assombro com as noticias. A sessão de artes plásticas, que sempre despertou sua curiosidade, não merecia mais que alguns segundos, numa rápida passada de olhos. Por que estava assim tão apática?

Já havia ido a vários médicos e nenhum deles encontrara causa concreta que justificasse este estado de desânimo. Ela continuava presa a lembranças do passado, longe de sua cidade, de sua gente, de sua profissão. O que aquelas férias fizeram com ela? Ela nunca mais fora a mesma pessoa depois daquela temporada na Grécia. Os mais crédulos achavam que era algo espiritual, será que os deuses do Olimpo se levantaram e passaram alguma mensagem?

Silvia voltara mudada, uma mudança de base. Como se outra pessoa habitasse aquele corpo. Os trejeitos eram outros, seu modo de falar rápido e veemente fora trocado por uma fala mais cadenciada e mansa. O olhar andava perdido num vazio no tempo, parecia que ouvia vozes, alguns amigos próximos estavam muito preocupados, ela parecia outra pessoa, outra Silvia, não aquela que eles conheciam.

A viagem à Grécia era um sonho antigo que a vida profissional atribulada de Silvia foi adiando ano após ano. Até que depois de sete anos sem férias – ela colocou a si mesma como prioridade e embarcou na sua viagem dos sonhos, deixando a carreira em segundo plano.

O roteiro fora minuciosamente estudado e revisto várias vezes, aproveitando a oportunidade dos melhores passeios que só acontecem no período do verão. Escolheu as roupas adequadas para um mês de férias  num  maravilhoso resort indicado pela sua agência de viagem de confiança. Conhecer Santorini era sua paixão, o balneário povoava seus sonhos fazia tempo. O resort era cenário de cinema! A diária custava uma pequena fortuna, mas ela merecia – 7 anos sem férias!

Sendo assim, tudo fora programado para uma viagem sem imprevistos, nada justificava a volta de Silvia naquele estado de desânimo.  Amigos acharam esquisito que ela escolhesse um local tão romântico para viajar sozinha, alguns arriscaram que havia um namorado secreto com o qual ela iria se encontrar. Foram apenas suposições, nada foi comprovado.

Os meses foram se passando, Silvia se arrastava do trabalho para casa e da casa para o trabalho. Até sua aparência estava diferente, logo ela que era tão preocupada com o visual, com os cabelos. Andava desleixada, usava roupas amassadas...

Um amigo muito querido, Salvador não aguentou vê-la naquele estado e resolveu investigar. Comprou um bilhete e foi até lá ver se descobria a razão da mudança e da tristeza de Silvia. Chegando a Santorini, ficou no mesmo hotel e perguntou na recepção se eles se lembravam da moça ruiva de cabelos longos que passara o último verão aqui na suíte Peloponeso.

A recepcionista oriental que falava bem inglês se lembrava de Silvia. Ela contou que a moça ruiva acordava cedo e tomava seu café na varanda e depois saia de barco, num barco de aluguel com um marinheiro contratado para visitar as outras ilhas e voltava ao cair da tarde, bem sorridente e parecia feliz! À noite, ela saia com o grupo de hóspedes paulistas do hotel e frequentava as boates da redondeza. Nada de suspeito foi notado. Ela estava sempre sorridente e poucas vezes chamou o serviço de quarto.  Ela saia sempre sozinha de barco, ela e o marinheiro, Nickos, um rapaz conhecido na ilha.

Salvador continuava achando estranho estes passeios de barco, não havia tanta coisa assim para ver... Resolveu alugar outro barco e sair algumas manhãs para investigar se algo de anormal acontecia. O barqueiro contratado disse que Nickos era um rapaz de confiança, era órfão, perdera os pais num desastre de carro e morava com a tia, na região mais pobre do balneário.

Salvador pediu ao seu barqueiro que conseguisse o endereço da tia de Nickos, queria conversar com ela. O rapaz ficou apreensivo em fornecer esta informação, mas Salvador foi enfático e disse que era muito importante e gratificou o informante em 300 euros. Muita coisa estava em jogo agora, ele precisava descobrir a razão da apatia da amiga. O grego arrumou o endereço solicitado e Salvador foi conhecer a tia de Nickos, o marinheiro. Era uma casa simples, mas algo de especial chamou atenção do turista, nas janelas, as cortinas eram pintadas com desenhos abstratos muito parecidos com os que Silvia fizera no inicio da carreira.  Olhou a volta, a casa ficava numa ladeira, bem na esquina de uma avenida movimentada, mas ao passar pelas janelas abertas e cortinas esvoaçantes, Salvador sentiu um cheiro doce muito familiar, que lhe trazia recordações. Decidido, chegou à porta da pequena casa branca com janelas azuis e bateu...

Silêncio! Bateu de novo, ouviu vozes sussurrando... Mas ninguém veio abrir a porta. Ao lado da casa tinha um bar muito simples, Salvador sentou e resolveu esperar para ver se alguém entrava ou saia da casa de Nickos. Quase escurecendo, Salvador viu uma moça saindo da casa com um lenço colorido na cabeça e óculos escuros. Estranhou, a moça olhava para os lados, parecia assustada. Resolveu segui-la de longe... Ela foi até a praia. Tirou o vestido e nadou por algum tempo, depois se sentou na areia e ficou olhando o mar. Salvador chegou mais perto e percebeu que a semelhança com Silvia era absurda. Respirou fundo para oxigenar as ideias. Quando a moça finalmente se levantou para ir embora e foi colocar o lenço e os óculos, ele arriscou e gritou bem alto: SILVIA!!!  - Ela olhou para trás por alguns instantes, procurando de onde vinha aquela voz! Salvador começou a chorar, misturando sensações de stress, medo e prazer. Por que eram tão parecidas - aquela moça simples e a outra Silvia?

Soprou um vento frio, a moça sentiu um arrepio, fazia tempo que ninguém a chamava de Silvia. Aqui na cidade, ela era conhecida por Helena, Silvia Helena era seu nome de batismo, mas pouca gente sabia. Quem era aquele homem que a olhava fixamente? Ele conhecia seu passado? Fora ele que gritara Silvia! Mas quem era ele apenas um turista?

BEBEL POZZI
JUNHO 2013